COOPERATIVISMO E SUCESSÃO FAMILIAR: O LEGADO QUE NASCE DENTRO DE CASA

Uma cooperativa não morre por falta de capital: morre por falta de sucessores. E o futuro do campo se decide dentro de casa, muito antes de qualquer inventário.

COOPERATIVISMO E SUCESSÃO FAMILIAR: O LEGADO QUE NASCE DENTRO DE CASA

Uma cooperativa não morre por falta de capital. Morre por falta de sucessores. E o futuro do campo se decide muito antes de qualquer inventário: na mesa onde pais e filhos aprendem, ou não, a decidir juntos.

Num tempo de êxodo rural, queda da natalidade e telas que prometem uma vida urbana mais atraente, falar de sucessão familiar é falar da sobrevivência do próprio cooperativismo. Depois de mais de quatro décadas como extensionista rural dedicado inteiramente à juventude do campo e do mar, dos Clubes 4-S ao Pró-Jovem, aprendi que a inteligência cooperativa não nasce na assembleia: nasce dentro de casa. Este texto reúne essa experiência e a transforma numa tese simples e incômoda: se não houver sucessão nas propriedades, não haverá sucessão nas cooperativas.


HERDAR É DIFERENTE DE SUCEDER

Herdar é receber; suceder é dar continuidade. Ninguém se torna sucessor no dia da partilha, mas ao longo de milhares de manhãs em que aprendeu a olhar o céu, reconhecer o solo e confiar no vizinho. Como ensinava Aristóteles, a excelência não é um ato, mas um hábito.

Herdeiros, todos os filhos são. Sucessores, nem todos. Entre uma condição e outra há um abismo que a lei não atravessa e só a educação percorre.


TODA A MINHA EXTENSÃO FOI FEITA COM A JUVENTUDE

Comecei nos Clubes 4-S, com sua pedagogia luminosa: Saber, porque o conhecimento liberta; Servir, porque quem não serve não serve; Sentir, porque a razão sem afeto endurece o coração; ter Saúde, porque nenhum projeto de vida se sustenta sobre um corpo e uma alma adoecidos. Dali passei aos grupos de jovens, às pastorais e, enfim, ao Pró-Jovem, do qual fui Gestor Estadual em Santa Catarina. Foi num grupo de jovens, o CEJUCA, que encontrei Ana Maria, minha esposa. A juventude organizada não me deu apenas uma profissão: deu-me uma família.


MAIS DO QUE HERANÇA, UMA MEMÓRIA PLANEJADA

Setenta por cento das transferências de patrimônio na família fracassam. E o foco do problema não está apenas no jovem, está em toda a família. A descontinuidade patrimonial é sintoma de uma descontinuidade no plano dos valores. Como lembrava Sêneca, nenhum vento é favorável a quem não sabe para onde vai.

A propriedade que não sabe para onde vai não terá sucessores. Terá apenas espólio.


SUCESSOR NÃO É CLIENTE, MAS TAMBÉM DONO

Aqui reside o erro pedagógico de gerações de dirigentes: tratamos o jovem como consumidor de serviços cooperativos, quando ele é coproprietário de um patrimônio doutrinário. Oferecemos-lhe desconto no insumo, quando deveríamos oferecer-lhe assento na assembleia. O sucessor não é um suplente comum, mas um dono na origem, assim como o associado não é cliente da cooperativa: ele é a cooperativa.


SUCESSORES COM CHEIRO DE TERRA

Um programa de sucessão deve focar no desenvolvimento humano, formando não apenas interessados em trabalhar no campo, mas sucessores capazes de unir enraizamento e inovação, com abertura às novas tecnologias: agricultura de precisão, monitoramento, gestão, mercado. Quanto mais diversificada a propriedade, maior a chance dos filhos se tornarem sucessores por atividade, e não por obrigação.

Quem se liga à terra nunca erra. E quanto maior a mesa da cooperação, mais se comunga do mesmo pão.


A COOPERATIVA NASCE DENTRO DE CASA

É no seio das famílias que se iniciam o compartilhamento de tarefas, a solidariedade, a livre adesão e o comprometimento com o outro. A principal tarefa da educação cooperativista é fazer com que as novas gerações se insiram criticamente na gestão do empreendimento, entendendo que a empresa cooperativa é delas. O desafio central não é jurídico nem financeiro: é pedagógico.

A sucessão familiar acontece cooperativamente dentro da propriedade, pois é aí que a própria cooperativa nasce de verdade. Nenhuma geração tem o direito de entregar à seguinte um patrimônio maior do que os valores que o sustentam.

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Tem um artigo disponível, “Cooperativismo e Sucessão Familiar: O Legado que Nasce Dentro de Casa“, do autor Ainor F. Lotério, para ser baixado gratuitamente. Vamos nos aprofundar

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