QUEM CULTIVA TAMBÉM PRECISA SER CULTIVADO
Quem passa a vida regando os outros precisa aprender a pedir chuva para si.
A Sabedoria do Campo: Cuidar Não é Fraqueza
O agricultor experiente sabe que nenhuma lavoura se sustenta sozinha. A terra que mais produz é também a que mais exige cuidado, correção, descanso e reposição. Ninguém acha estranho que um solo fértil precise de calcário, que uma planta vigorosa precise de poda, que um pomar generoso precise de água na estiagem. No campo, cuidar não é sinal de fraqueza, é condição da abundância. Por que então, quando o assunto somos nós mesmos, insistimos em achar que precisar de cuidado é um defeito?
O Cuidado Essencial para Quem Orienta
Passei a vida em palcos, rádios e salas de formação falando de motivação, equilíbrio, relações humanas e gestão de si. Aprendi, às vezes da maneira mais dura, que quem orienta os outros não está dispensado de precisar de orientação. O oftalmologista usa óculos. O cardiologista, que ensinou tanta gente a cuidar do coração, também pode adoecer do coração, e isso não desmente uma só palavra do que ele ensinou. Ao contrário, confirma que ele é feito da mesma matéria de todos nós. Nem sempre conseguimos praticar em toda hora aquilo que recomendamos, e essa é a verdade mais honesta que um formador pode oferecer. A perfeição não inspira, apenas afasta, porque cria uma ilusão que humilha quem tenta dar conta da vida real.
Há líderes que secam por dentro enquanto todo mundo elogia o verde da sua lavoura.
Fortalecendo a Liderança e o Cooperativismo
No cooperativismo, essa lição é doutrina antes de ser sentimento. A cooperativa nasceu da consciência de que ninguém se basta sozinho, de que a força de um é a fragilidade partilhada de muitos transformada em amparo mútuo. O produtor que entrega sua safra à cooperativa não confessa incapacidade, exerce inteligência, porque sabe que o que não consegue fazer só, faz melhor acompanhado. Aceitar cuidado obedece à mesma lógica, aplicada à própria pessoa. É cooperar consigo mesmo.
Na gestão pública e na liderança, o princípio vale com mais peso, porque de quem conduz costumamos exigir uma força que não permite trégua. O gestor que reconhece os próprios limites e busca apoio não enfraquece a instituição, fortalece-a, porque decisões tomadas por alguém inteiro valem mais do que decisões tomadas por quem se esgota fingindo que não se esgota. Firmeza verdadeira não é ausência de fragilidade, é saber cuidar da fragilidade para que ela não vire ruína.
Agrosofia: A Colheita do Autocuidado
Ninguém colhe da própria vida aquilo que nunca permitiu que plantassem nela.
A Agrosofia me ensinou a ler a vida com os olhos do campo, e o campo não conhece vergonha na necessidade de cuidado. A semente precisa ser enterrada para germinar. O tronco precisa de cicatriz para seguir crescendo. A colheita farta é sempre filha de um cuidado que ninguém viu, feito no silêncio, longe dos aplausos. Assim também é conosco. O bem que fazemos aos outros não nos isenta de precisar de cuidado, ele nos obriga a nos cuidarmos, para que a fonte não seque justamente quando mais gente bebe dela.
Afeto e Vulnerabilidade: A Verdade que Cria Raiz
Há aqui uma dimensão que nenhuma técnica alcança, e ela se chama afeto. Ser humano desenvolvido não é ser humano blindado. É aquele que aprendeu a receber colo sem se envergonhar, a dizer que está cansado sem sentir que traiu a própria história, a deixar que alguém cuide dele com a mesma naturalidade com que ele cuida de tantos. Cuidar de si é ato privado, soberano e legítimo, não exige justificativa nem plateia. Quem usa óculos não pede desculpa por enxergar melhor. Mas quando escolhemos partilhar que também atravessamos desafios, não perdemos autoridade, ganhamos verdade. E a verdade, no campo como na vida, é o único terreno em que qualquer coisa boa consegue de fato criar raiz.
A Coerência de Viver o Que Se Ensina
Quem cultiva também precisa ser cultivado. Esta não é uma concessão à fraqueza, é o reconhecimento maduro de que a fonte precisa ser abastecida para continuar dando de beber. O formador, o líder, o cooperativista e o gestor que aprendem a se cuidar não perdem estatura diante de quem orientam. Ganham a coerência de quem vive aquilo que ensina, ainda que de modo imperfeito, porque é exatamente na imperfeição assumida que a palavra encontra credibilidade e a comunidade encontra empatia.
Convido você a ler o artigo na íntegra, disponível em PDF: Quem cultiva também precisa ser cultivado: o autocuidado como condição da coerência em quem orienta pessoas. E convido também à conversa. Deixe sua contribuição, sua experiência, aquilo que a vida lhe ensinou sobre cuidar e ser cuidado. É assim que este trabalho cresce, do mesmo jeito que cresce uma lavoura: com muitas mãos e muito diálogo.