PRODUZIR MAIS DO QUE SE CONSEGUE LER - A INTEGRIDADE DE QUEM COMUNICA NA ERA DO ALGORITMO E DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Não escrevo isto para condenar ferramenta nenhuma, nem para acusar quem quer que seja. Escrevo para provocar uma volta a si.

Você não é autor, é apenas o rótulo colado numa embalagem que outro encheu

Se você produz muito além daquilo que consegue ler, digerir e sustentar, então aquilo não é seu. Não importa quão bonito seja o texto, quão elevada a frase, quão nobre a intenção. Se você mesmo não parou para ler, não se comoveu, não conferiu se aquilo é verdade e se corresponde ao que acredita, você não escreveu nada. Apenas assinou. E o que não é seu, mas se apresenta como se fosse, tem um nome antigo e honesto que todos nós conhecemos.

A ferramenta não é o problema, a relação com ela é que revela o caráter

Não há pecado algum em usar as ferramentas do tempo. A inteligência artificial é aliada de quem tem o que dizer e busca dizer melhor. Uma coisa é usar a tecnologia para lapidar um pensamento que é meu, que nasceu da minha vivência e passou pela minha reflexão antes de virar publicação. Outra, bem diferente, é terceirizar o próprio pensamento e colher uma safra que nunca se plantou. A mente humana não é substituída pela tecnologia, é potencializada quando a usa com discernimento.

Conteúdo sem procedência é safra sem raiz

O agricultor sério conhece cada palmo da sua terra. Sabe de onde veio a semente, como foi o plantio, o que a chuva fez e o que a estiagem levou. A colheita tem o suor dele dentro, e por isso ele pode olhar nos olhos de quem compra e garantir a procedência do que oferece. Quem despeja no mundo aquilo que não leu nem entendeu faz exatamente o contrário: oferece uma safra sem raiz, sem responsabilidade sobre o que ela vai fazer no prato de quem a recebe.

O excesso não adoece só quem publica, adoece a comunidade inteira

Quando o volume substitui a verdade, o público perde a capacidade de distinguir o que tem lastro do que é apenas ruído bem produzido. As pessoas se acostumam a receber muito e a sentir pouco. A palavra, que sempre foi ponte entre seres humanos, vira mercadoria descartável. Uma comunidade bombardeada por conteúdo sem alma vai, aos poucos, se insensibilizando. Deixa de se emocionar, deixa de confiar, deixa de acreditar que por trás de um texto existe alguém de verdade querendo dizer algo de verdade.

Antes de apertar o botão que publica, quatro perguntas

  • Isto é meu?
  • Eu li?
  • Eu penso assim de verdade?
  • Eu assinaria isto olhando nos olhos de quem vai receber?

Comunicar é ato de responsabilidade sobre o outro, porque cada palavra que lançamos vai parar dentro de alguém e ali produz efeito, para o bem ou para o mal. Se a resposta for sim, publique com a serenidade de quem planta o que é seu. Se for não, talvez seja hora de produzir menos e refletir mais.

Neste momento, mais do que nunca, é preciso ler o artigo por inteiro para compreender o que é conhecimento falso e o que é essencialmente verdadeiro. A leitura completa está disponível em PDF: Produzir mais do que se consegue ler: a integridade de quem comunica na era do algoritmo e da inteligência artificial, de Ainor Francisco Lotério.

No fim das contas, o que sustenta uma comunidade não é o volume do que se diz. É a verdade de quem diz.

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