QUATRO LETRAS: AGRO, DEUS E ÉDEN. A COINCIDÊNCIA QUE ABRE A PORTA E O VERBO QUE SUSTENTA A CASA
Conte as letras. Agro tem quatro. Deus tem quatro. Éden tem quatro. A constatação costuma provocar sorriso nas plateias e silêncio logo depois, porque alguma coisa no ouvinte desconfia de que ali não há apenas um acaso ortográfico. A honestidade intelectual, porém, exige começar pelo limite: a coincidência é gráfica, vale para o português, sustenta-se em latim e se desfaz em parte no hebraico, ainda que ali o nome divino revelado na sarça ardente seja justamente um tetragrama, quatro consoantes sagradas que a tradição judaica jamais pronunciou. Nada disso prova coisa alguma, e é bom que assim seja.
A coincidência é a aldrava, não é a casa. Ela bate à porta de um edifício que já estava construído muito antes de alguém contar as letras.
COLERE, A RAIZ QUE A MODERNIDADE SEPAROU
O verbo latino colere significa ao mesmo tempo cultivar a terra, habitar um lugar, honrar e prestar culto. Dele derivam, no mesmo tronco, cultivo, cultura e culto. Quando Cícero afirmou que a filosofia é a cultura da alma, não fazia metáfora poética, fazia transposição técnica, porque entendia que a alma, como a lavoura, precisa ser arada, semeada, capinada e esperada.
Quem lavra o solo, quem forma o espírito e quem adora a Deus praticam o mesmo gesto declinado em três direções.
GÊNESIS 2,15, O VERBO QUE UNE LAVRAR E ADORAR
O texto bíblico realiza a mesma operação com precisão ainda maior. O homem é colocado no jardim para o cultivar e o guardar, e o verbo empregado para cultivar é avad, exatamente o mesmo que a Escritura usa para servir a Deus e prestar culto, enquanto guardar é shamar, o mesmo verbo usado para guardar os mandamentos. A primeira liturgia da humanidade não aconteceu em um templo, aconteceu em uma horta.
Não é que agro e Deus tenham o mesmo número de letras. É que cultivar e adorar sempre tiveram o mesmo verbo.
ADAMAH E HUMUS, A ANTROPOLOGIA QUE JÁ É AGRONOMIA
Adão deriva de adamah, o solo arável, e humano vem de humus, a terra fértil, da mesma raiz de onde nasce humildade. A antropologia bíblica é, portanto, uma agronomia declarada. O ser humano é solo animado pelo sopro divino e responde às mesmas leis que a lavoura conhece: precisa de raiz, de tempo, de descanso, de poda, de adubação e de aceitação da estação em que se encontra.
Quem cultivou entende de gente, porque descobriu na terra que ninguém amadurece por decreto.
DO JARDIM À CIDADE
O Éden costuma ser lido como paraíso perdido, mas a Escritura começa em um jardim e termina em uma cidade que tem, no meio da praça, a árvore da vida. Ressuscitado, Cristo é confundido por Maria Madalena com o jardineiro, e a tradição patrística nunca tratou isso como engano de olhos marejados, mas como reconhecimento involuntário da verdade. Assim o Éden deixa de ser lamento e passa a ser programa: cada nascente protegida, cada família que permanece na terra com dignidade e cada cooperativa que reparte resultado com justiça são antecipações modestas daquele jardim final.
A ressurreição é a colheita definitiva de uma semente que foi enterrada.
A AGROTEOLOGIA HABITA A AGROSOFIA
A proposta terminológica é econômica e deliberada. A agroteologia não concorre com a Agrosofia, ela a habita, como movimento interno pelo qual a Agrosofia levanta os olhos do solo e reconhece o dono da lavoura. À Agronomia cabe o como, à Filosofia cabe o porquê, à Teologia cabe o para quem. Daí decorrem as aplicações: no ofertório da missa, que apresenta não o trigo mas o pão, reconhecendo o trabalho humano entre a semente e o altar; no cooperativismo, lavoura de pessoas que não colhe fora de estação e que, se não semeia educação, não colhe participação; e na sucessão familiar, onde a muda plantada à sombra permanente da árvore matriz morre por falta de luz, razão de ser da Pedagogia da Ausência.
A ausência, quando anunciada e amorosa, é forma superior de presença.
Quem aprende com a terra está, sem perceber, aprendendo com Quem a fez.
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