FOI PARA A LIBERDADE QUE CRISTO NOS LIBERTOU: A escravidão religiosa não se impõe pela violência, ela se oferece como remédio para a insegurança.

Gálatas 5,1 como critério de discernimento eclesial diante da agenda pesada, do clericalismo e do ativismo religioso, sob a perspectiva teológica da Agrosofia

FOI PARA A LIBERDADE QUE CRISTO NOS LIBERTOU: QUANDO A RELIGIÃO BEM ORGANIZADA VIRA O NOVO JUGO

O leitor apressado de Gálatas 5,1 costuma perder o dado mais importante: quem eram os destinatários. Paulo não escreve a pagãos entregues à idolatria nem a comunidades dissolvidas na imoralidade. Escreve a batizados fervorosos, gente que ora, que se reúne, que deseja agradar a Deus. O jugo que ele denuncia não é o pecado escancarado, é a religião bem organizada. Os que perturbavam os gálatas não pregavam licenciosidade, pregavam observância, calendário e pertença verificável, oferecendo segurança em troca de liberdade.

A escravidão religiosa não se impõe pela violência. Ela se oferece como remédio para a insegurança.

A AGENDA PESADA COMO CIRCUNCISÃO CONTEMPORÂNEA

A tradução mais visível do jugo, hoje, chama-se agenda. Reuniões que se justificam por outras reuniões, campanhas sobrepostas, celebrações multiplicadas até a exaustão, um calendário que já não nasce da vida do povo e passa a se impor sobre ela. A comunidade deixa de ser assembleia convocada e vira executora de cronograma, e como cada item isolado parece legítimo, a soma nunca é examinada. O critério de discernimento não pode ser a boa intenção da atividade, precisa ser o fruto que ela produz na vida concreta das pessoas.

Uma comunidade que sai da missa mais cansada do que entrou recebeu jugo, não recebeu graça.

O CLERICALISMO E A RECAÍDA NO SINAL DISTINTIVO

Se a circuncisão separava quem estava dentro de quem estava fora, o clericalismo institui hoje a mesma fronteira interna, distinguindo quem decide de quem obedece, quem fala de quem escuta. O batismo, verdadeiro sinal da pertença, é discretamente rebaixado diante do cargo. Convém sublinhar o aspecto que costuma ser omitido: essa não é doença exclusiva do clero, porque se sustenta também na cumplicidade de comunidades que preferem ser conduzidas a assumir a própria responsabilidade.

Obedecer custa menos do que discernir. Ser livre exige maturidade, e a maturidade exige risco.

O ATIVISMO RELIGIOSO E A JUSTIFICAÇÃO PELO DESEMPENHO

A terceira figura do jugo é a mais silenciosa, porque se apresenta como virtude. A antiga justificação pelas obras retorna como justificação pela produtividade pastoral, e o resultado é o esgotamento moralmente justificado, o cansaço que ninguém pode nomear porque tudo o que cansa foi feito em nome de Deus. Não há capataz impondo esse jugo, nós o carregamos por iniciativa própria e o chamamos de zelo.

Quando a interrupção da atividade produz culpa e não descanso, o jugo já foi assumido.

O CRITÉRIO DOS DOIS JUGOS

Gálatas 5,1 proíbe o jugo de escravidão e Mateus 11,29 oferece um jugo suave. Não há contradição, há distinção de natureza: o jugo de Cristo é o vínculo que sustenta, o jugo da lei é o peso que esmaga. Toda prática, estrutura, cargo ou campanha pode ser submetida a esse exame. Gera gratidão, comunhão e descanso interior, ou produz medo, culpa e exaustão? E a saída do jugo nunca é o individualismo religioso, porque quem troca a estrutura pesada pelo isolamento apenas mudou de escravidão.

Ambos comprometem, mas apenas um liberta. A liberdade cristã não se mede pela ausência de vínculo, mede-se pela qualidade do vínculo.

A LIBERDADE APRENDIDA NA TERRA

Quem convive com o ciclo agrícola aprende, por experiência e não por argumento, que existe limite para a intervenção humana. O agricultor prepara o solo, semeia, aduba e capina, mas não faz germinar, e esse intervalo entre o trabalho e o fruto é a escola natural da graça. Em linguagem agronômica, o ativismo é a tentativa de forçar a colheita antes do ponto, a agenda pesada é a monocultura da alma que esgota o solo pela repetição sem pousio, e o clericalismo é o produtor que nunca entrega o manejo ao filho e depois se queixa de que ninguém quer permanecer no campo. Daí nasce a Pedagogia da Ausência, aplicação eclesial do princípio do pousio, e a Ciclomotivação, que reconhece que o ânimo humano tem estações.

Ausentar-se não é abandonar, é confiar. Uma comunidade que não sobrevive à ausência de quem sempre esteve presente não foi evangelizada, foi tutelada.

A PERGUNTA FINAL

O que fazemos torna as pessoas mais livres para amar, ou apenas mais ocupadas para permanecer? Da resposta honesta a essa pergunta depende saber se ainda estamos firmes na liberdade, ou se já aceitamos, sem perceber, o jugo que nos foi retirado dos ombros ao preço da cruz.

A liberdade que Cristo conquistou não dispensa a comunidade, dispensa o cativeiro.

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