A COMPARAÇÃO É QUE ADOECE, NÃO O PENSAMENTO: Por que nenhum filósofo morreu de pensar, o que a ciência separou entre ruminar e refletir e por que a oferta é a única medida humana que não admite comparação.

Nenhum filósofo morreu de pensar. Morreram de guerra, de tortura, de doença, de perseguição, e alguns de transtorno mental que nada tinha a ver com o que liam.

NENHUM FILÓSOFO MORREU DE PENSAR: O QUE ADOECE É A COMPARAÇÃO

Chamada de leitura

Sêneca morreu por ordem de Nero. Benjamin, cercado na fronteira em 1940. Améry, pelo que Auschwitz lhe fez. Nenhum deles morreu de pensar, e mesmo assim a lenda persiste. Este ensaio mostra o que a ciência separou entre ruminar e refletir, por que a régua que vem de fora nunca para, e qual é o único gesto humano que não admite comparação. Leia na íntegra em: https://loterio.com.br/?jfb_pdf=44298


1. O MITO DO FILÓSOFO QUE MORREU DE PENSAR

Nenhum filósofo morreu de pensar. Morreram de guerra, de tortura, de doença, de perseguição, e alguns de transtorno mental que nada tinha a ver com o que liam. Sêneca morreu por ordem de Nero, em 65 d.C. Walter Benjamin, cercado na fronteira em 1940, fugindo do extermínio. Jean Améry, pelo que Auschwitz lhe fez. Gilles Deleuze e André Gorz, em quadros de doença terminal. O colapso de Nietzsche, em 1889, é hoje atribuído a causa orgânica, e a história de Lucrécio enlouquecido por um filtro de amor vem de São Jerônimo, três séculos depois, tratada pelos historiadores como lenda. A ideia de que a reflexão mata é lenda com viés de seleção: lembramos dos célebres e esquecemos os milhares que morreram velhos, de causas banais.

2. RUMINAR NÃO É PENSAR, E A CIÊNCIA MOSTROU A DIFERENÇA

Treynor, Gonzalez e Nolen-Hoeksema (2003) demonstraram que a ruminação não é uma coisa só, e sim duas. O brooding consiste em comparar passivamente a situação atual com um padrão não alcançado, e está associado à piora do quadro depressivo. A reflexão propositiva é o pensamento que se volta para resolver, e se comporta de maneira inteiramente distinta. Repare no que separa uma da outra: não é a intensidade do pensar, não é o tempo dedicado, não é a profundidade do tema, é a comparação. Nolen-Hoeksema, Wisco e Lyubomirsky (2008) acrescentaram o mecanismo, pois a ruminação trava a ação, prejudica a solução de problemas e corrói o apoio social. Ela não apenas dói, ela desliga o sujeito do mundo que poderia curá-lo.

3. A RÉGUA QUE VEM DE FORA: FESTINGER, GIRARD E A TRADIÇÃO

Festinger (1954) formulou a teoria da comparação social: na ausência de critério objetivo, o ser humano se avalia usando os outros como medida. O problema é que essa régua nunca para, porque sempre existe alguém acima, e a comparação ascendente converte qualquer conquista em insuficiência. Lyubomirsky e Ross (1997) mostraram um dado revelador, o de que as pessoas mais felizes não são as que vencem as comparações, são as que reagem menos a elas. Girard acrescenta a camada mais profunda com o desejo mimético, pois desejamos aquilo que o outro deseja, e o outro se torna ao mesmo tempo modelo e obstáculo. Ele observa que o Decálogo termina proibindo não um ato, mas um desejo: “Não cobiçarás a casa do teu próximo” (Êxodo 20, 17). O mandamento não protege a casa, protege o coração de quem olha para ela. Tomás de Aquino já definira a inveja, na Suma Teológica, II-II, questão 36, como tristeza diante do bem alheio, e Kierkegaard notou que o lírio é belo porque não se compara, e que definharia no instante em que passasse a medir-se.

4. O REMÉDIO ANTIGO, A MOTIVAÇÃO RACIONAL E A OFERTA

Hume desabou aos dezoito anos, e o médico chamou aquilo de a doença dos eruditos. Em carta de 1734 escreveu que há duas coisas muito ruins para esse mal, o estudo e a ociosidade, e duas muito boas, a ocupação e a distração. Largou os livros, foi trabalhar em Bristol, montou a cavalo, comeu, conversou, e nunca mais adoeceu daquilo. John Stuart Mill teve crise idêntica aos vinte anos e atribuiu a cura à poesia, não à análise. Nos dois casos a cura não foi calar a mente, foi retirar dela a régua, e nenhum deles se curou no isolamento: curaram-se voltando ao corpo, à ocupação e à companhia. É exatamente isso que a Motivação Racional nomeia, a capacidade de gerenciar pensamentos sobre emoções, agindo com autonomia inteligente em vez de reagir impulsivamente. Paulo dá a regra prática em Gálatas 6, 4 e 5: “Mas prove cada um a sua própria obra, e terá glória só em si mesmo, e não noutro. Porque cada qual levará a sua própria carga.” A maturidade é a troca da medida: deixa-se de perguntar quanto eu tenho em relação ao outro e passa-se a perguntar o que eu ofereço. Ofertar é o único gesto humano que não admite comparação, porque a primícia se entrega ao doador, e não à vizinhança. Ninguém compara altares. Enquanto se compara, tudo é véspera. Quando se oferece, tudo é presente.


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