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Ainor Lotério
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A ESCALA QUE NÃO MENTIA: MEMÓRIA, CONCEITO E NÚMERO NA EDUCAÇÃO DE ONTEM E DE HOJE

Havia um silêncio próprio na sala quando o professor entrava com os boletins debaixo do braço. Não era o silêncio do medo, era o silêncio da espera.

Havia um silêncio próprio na sala quando o professor entrava com os boletins debaixo do braço. Não era o silêncio do medo, era o silêncio da espera, porque ali, naquela folha de papel áspero, viria escrita à caneta uma palavra sobre si mesmo: insuficiente, regular, satisfatório, bom, ótimo. Cinco palavras que atravessaram a infância de uma geração inteira e que ainda ecoam com mais nitidez do que qualquer nota recebida na vida adulta.

Convido você a ler, na íntegra e gratuitamente, o artigo completo em PDF “A escala que não mentia: memória, conceito e número na educação de ontem e de hoje“, disponível ao final desta postagem.

Uma escala que nunca foi lei

A equivalência que a memória guardou (insuficiente, regular, satisfatório, bom, ótimo, numa escala de 0 a 10) nunca existiu como norma federal. A lei delegava a cada escola, por regimento próprio, a apuração do rendimento escolar, e ainda determinava que os aspectos qualitativos deveriam preponderar sobre os quantitativos. A prática, porém, seguiu o caminho oposto: a palavra perdeu espaço para o número.

A honestidade do conceito

Quando o professor escrevia bom, ele emitia um juízo e sabia que emitia um juízo. Quando hoje se escreve 8,3, produz-se a ilusão de ter medido, com precisão de décimo, aquilo que não se mede com decimais. O número converte julgamento em aparência de aferição, e essa conversão é uma pequena mentira que a escola conta a si mesma a cada bimestre.

Conceitos e preconceitos

O conceito também tem seu preço: reúne sob o mesmo rótulo desempenhos distintos e depende da subjetividade de quem avalia. Mas o risco maior está em outro lugar, no rótulo que vira apelido e no aluno que carrega, por anos, a palavra escrita por um adulto cansado numa tarde de novembro.

A empresa como sala de aula

Transponha essa escala para o mundo do trabalho e observe o que acontece. Toda empresa que capacita sua equipe está fazendo o que a escola fazia: formando pessoas, desenvolvendo talentos e avaliando o resultado. O que muda é a linguagem, cheia de percentuais e quartis, até que o gestor fecha a porta da sala e volta, instintivamente, ao conceito: diz que o fulano é bom, que o serviço saiu regular, que aquele trabalho foi ótimo.

O que a palavra pergunta e o número encerra

Insuficiente descrevia uma relação entre o aluno e aquilo que ele ainda precisava aprender, e por isso convidava à pergunta seguinte: insuficiente para quê. Uma nota 4,2 encerra o assunto, porque número não pede continuação. Não somos seres petrificados, quantificados por médias e percentuais. O que sobra de uma vida não é a planilha, é o gesto, a palavra dita na hora certa, o professor que acreditou quando não havia razão estatística para acreditar.

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