MEUS FILHOS NÃO SÃO MELHORES, MAS SÃO MEUS: A FRASE QUE EU REPETIA E O ERRO QUE ELA ESCONDIA
Chamada de leitura
Durante anos repeti dentro de casa uma frase que eu julgava santa, a de que meus filhos não eram melhores do que os filhos dos vizinhos que eu nem conheço. Hoje percebo que eu misturava duas coisas que Deus separou, o valor de cada vida e o dever que cada vida coloca sobre mim. Este artigo revisa esse desarranjo à luz da ordem do amor de Agostinho, do que a terra ensina sobre solo genérico e da Pedagogia da Ausência. Leia o artigo “A ORDEM DO AMOR: MEUS FILHOS NÃO SÃO MELHORES, MAS SÃO MEUS-Agrosofia, Agroteologia, Família e Sucessão” na íntegra em: https://loterio.com.br/?jfb_pdf=44320
1. A FRASE QUE EU REPETIA, E A ORDEM DO AMOR
Dizia aquela frase com a convicção de quem se protege da vaidade e protege os filhos do orgulho. No valor, ela é verdadeira, pois nenhum filho meu vale mais do que o filho desconhecido de um homem desconhecido. No dever, ela é falsa, porque eu não devo ao filho do vizinho aquilo que devo aos meus. Confundir as duas coisas não é excesso de cristianismo, é cristianismo desarrumado. Agostinho deu nome ao desarranjo, ordo amoris, ensinando que todos os homens devem ser amados igualmente, mas que, como não podemos fazer o bem a todos, cabe cuidar preferencialmente daqueles que, por circunstância de lugar, de tempo e de vínculo, nos foram como que dados pela providência. Tomás de Aquino concluiu que a caridade tem ordem, e que amamos com maior intensidade os que nos são mais próximos, não porque valham mais, mas porque estão mais unidos a nós. Paulo não usou meias palavras: “Se alguém não cuida dos seus e sobretudo dos de sua própria casa, negou a fé e é pior do que um infiel” (1 Timóteo 5,8). Quando Jesus manda amar o próximo como a si mesmo (Marcos 12,31), não está apagando a proximidade, está fundando o amor exatamente sobre ela, porque próximo é palavra de distância e de rosto, não de estatística.
2. O QUE A TERRA ENSINA: NÃO EXISTE SOLO GENÉRICO
Aqui a Agrosofia me corrige melhor do que qualquer sermão. Quarenta anos de agronomia me ensinaram uma coisa elementar que a teoria moral costuma esquecer, a de que não existe solo genérico. Existe este solo, com esta acidez, esta argila, esta declividade, este histórico de uso e esta chuva. Nenhuma semente germina em terra em tese, e quem aduba o mapa em vez de adubar a lavoura não colhe nada, por mais nobre que seja a sua intenção. O amor que se distribui igualmente por toda a superfície do mundo é adubo lançado sobre o mapa. Simone Weil chamou o enraizamento de a necessidade mais importante e mais ignorada da alma humana, e o filho é a primeira coletividade concreta do pai. A agricultura sintrópica dá a essa verdade a sua forma mais bonita, porque num sistema consorciado cada espécie serve ao conjunto justamente ao ocupar o seu estrato e o seu tempo. A emergente não é melhor do que a rasteira, e a rasteira não é melhor do que a emergente. A planta que se recusa a ocupar o próprio estrato, em nome de servir a floresta inteira, não serve a floresta, desorganiza-a. Foi isso que eu fiz durante anos com uma frase de aparência humilde.
3. AGROTEOLOGIA: CULTIVAR E GUARDAR UM PEDAÇO DE CHÃO
A primeira ordem que Deus dá ao homem no Gênesis não é cósmica e difusa, é delimitada, cultivar e guardar um jardim (Gênesis 2,15). Deus não entregou ao homem a abstração do planeta, entregou um pedaço de chão com cerca, com árvores contadas, com rios que têm nome. O universal foi confiado ao homem em forma de particular, e essa é a pedagogia divina desde a primeira página da Escritura. Na parábola do semeador, a mesma semente encontra destinos diferentes conforme o terreno, e só a terra boa produz a trinta, a sessenta e a cem por um (Marcos 4,8), de modo que o que decide não é a qualidade do semeador, é a preparação daquele solo específico, tarefa de quem está ali. A ecologia integral insiste em que tudo está interligado, e é justamente por isso que a responsabilidade não se dissolve, ela se distribui, pois num sistema em que tudo se liga cada um responde primeiro pelo nó que está em suas mãos. Digo o mesmo do cooperativismo, e escrevi isso em Paixão pelo Cooperativismo, porque a intercooperação só existe porque antes existe a propriedade bem cuidada. Uma cooperativa formada por associados que descuidam da própria lavoura não tem o que levar ao entreposto. A família é a primeira cooperativa.
4. O PÊNDULO, A PEDAGOGIA DA AUSÊNCIA E O VIVER DIANTE
Corrigido o erro, é preciso vigiar o pêndulo, porque vem logo a tentação de dizer que agora tudo é deles, como se a reparação se fizesse por quantidade de entrega. O que faltava não era volume, era ordem. Quem se dissolve inteiro no filho não lhe entrega um pai, entrega um recurso, e o filho que recebe um recurso aprende a administrar, não a herdar. É o que venho chamando de Pedagogia da Ausência, pois há um ponto em que a maior doação do pai é o passo atrás, o silêncio calculado, o espaço vazio onde o filho descobre que é capaz. O agricultor conhece esse ponto melhor do que ninguém, porque sabe que muda transplantada precisa de tutor no primeiro ano e precisa perder o tutor no segundo, sob pena de nunca formar lenho firme. Meus filhos não são melhores do que ninguém, e é bom que eles saibam disso, porque é assim que se forma um homem sem arrogância. Mas meus filhos são meus de um modo que ninguém mais é, e eles precisam saber disso também, porque é assim que se forma um homem sem orfandade. A primeira frase eu já disse muitas vezes, a segunda eu disse pouco, e é a que falta. No Sítio Agrosofia plantei garapuvus e ipês cuja sombra madura eu não vou aproveitar, e plantar árvore que outro vai usufruir é o gesto mais parecido com a paternidade que a terra permite. Por isso não quero mais viver para eles, quero viver diante deles, porque diante é a única posição que permite ao pai continuar sendo referência quando já não puder ser provisão.
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