EXISTE UM ÚLTIMO ATO DE TRABALHO, E ELE CONSISTE EM SABER PARAR
Chamada de leitura
Ainda na ativa, optei pela aposentadoria proporcional e me afastei. Poderia ter permanecido, somando vencimentos e ocupando cargo por mais alguns anos. Não permaneci, e abri espaço antes que me pedissem. Deste gesto nasce a Pedagogia da Ausência, aqui fundamentada em Aristóteles, Erikson, Rawls e na lei levítica de Números 8, submetida à objeção econômica mais séria que existe contra ela e delimitada com rigor: sair a tempo é direito de quem pode, jamais dever imposto a quem envelhece. Leia na íntegra o texto “A PEDAGOGIA DA AUSÊNCIA COMO JUSTIÇA ENTRE GERAÇÕES: SAIR A TEMPO” em: https://loterio.com.br/?jfb_pdf=44336
1. O GESTO ANTES DA TESE, E A AUSÊNCIA COMO ATO FORMATIVO
Toda tese honesta nasce de um gesto já praticado. Não escrevo sobre uma ideia que admiro de longe, escrevo sobre uma decisão que custou dinheiro, custou visibilidade e custou aquela sensação difusa de importância que o cargo empresta a quem o ocupa. Aos sessenta e cinco anos essa decisão amadureceu e se tornou postura de vida, pois quero passear, contemplar, cultivar o que plantei e viver sem a pressão do relógio produtivo, e entendo que os mais velhos que puderem, aqueles que já asseguraram o necessário, façam o mesmo, não por cansaço, mas por justiça. A Pedagogia da Ausência sustenta que o afastamento pode ser ato formativo, e não vazio, porque existe um ensino que só acontece quando quem sabe se retira. Enquanto o mais experiente permanece, o mais novo aprende observando. Quando o mais experiente sai, o mais novo aprende decidindo, e o segundo aprendizado é insubstituível. Freire ensinou que ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção, e a ausência é a mais radical dessas possibilidades, porque transfere, junto com a tarefa, o peso de errar sozinho, que é exatamente onde a competência se forma.
2. O ÓCIO COMO FINALIDADE DO TRABALHO E A PSICOLOGIA DA SAÍDA
A tradição clássica não tratava o repouso como ausência de atividade, mas como a atividade mais alta. Aristóteles situa a scholé, o tempo livre, como aquilo em vista do que se trabalha, e os romanos chamaram isso de otium, distinto do negotium, a negação do ócio, que é justamente o nome que deram ao negócio. Cícero, no Cato Maior de Senectute, responde que a velhice afasta apenas daquilo que exige força e reserva o que exige juízo. Pieper advertiu que uma civilização que reconhece valor apenas naquilo que produz perde a capacidade de contemplar, e Bobbio, já com mais de oitenta anos, escreveu que a velhice possui um tempo próprio, o tempo da memória. Erikson descreveu o sétimo estágio como o par generatividade e estagnação, e o oitavo como integridade e desespero, sendo o desespero marcado pela sensação de que falta tempo para recomeçar. O velho que não sai do posto muitas vezes não está servindo à instituição, está negociando com o próprio desespero por meio da agenda cheia. Quem foi por décadas aquele que trabalha sente que parar equivale a deixar de ser, o corpo pede repouso e a consciência acusa deserção, e esse desajuste é o verdadeiro obstáculo, não a suposta preguiça.
3. JUSTIÇA ENTRE GERAÇÕES E A LEI LEVÍTICA DO AFASTAMENTO
Rawls formulou o princípio da poupança justa, segundo o qual cada geração recebe da anterior e deve deixar à seguinte condições de vida ao menos equivalentes. Daniels propôs o argumento do curso prudencial de vida, mostrando que as instituições não distribuem recursos entre grupos etários rivais, e sim entre etapas de uma mesma vida individual, de modo que jovem e velho não são adversários, são a mesma pessoa em momentos distintos. Jonas radicalizou a responsabilidade em direção ao futuro, e quem ocupa indefinidamente um lugar que já não precisa ocupar age contra essa permanência em escala pequena, mas age. A Escritura contém uma passagem raramente lembrada e surpreendentemente precisa: em Números 8 a lei estabelece para os levitas não apenas a idade de entrada no serviço, mas também a de saída, pois “desde a idade de cinquenta anos sairão do serviço deste ministério” (Números 8,25), permanecendo na tenda para a guarda, sem exercer o ministério. O texto é notável por prever a saída como parte do estatuto e não como fracasso, por distinguir o serviço regular da assistência e por fixar o limite numa sociedade de expectativa de vida curta, o que revela que o critério não era o esgotamento físico, e sim a rotação. Paulo dirá o mesmo na primeira pessoa: “Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé” (2 Timóteo 4,7).
4. A OBJEÇÃO ECONÔMICA, O LIMITE DA TESE E A COLHEITA
Há um argumento popular segundo o qual, ao se aposentar, o mais velho libera uma vaga para o mais novo. É intuitivo e generoso, mas a economia não o confirma na escala macroeconômica, pois a pesquisa coordenada por Gruber e Wise, reunindo estudos de doze países, não encontrou evidência de relação entre o emprego dos trabalhadores mais velhos e o emprego dos jovens, desfazendo a chamada falácia do montante fixo de trabalho. Reconhecer isso não enfraquece a tese, desloca o seu fundamento e o torna mais sólido, porque se a economia nacional não é um jogo de soma zero, a instituição concreta é: uma cooperativa possui uma presidência, uma prefeitura possui um gabinete, uma empresa familiar possui uma cadeira de decisão. Nesses espaços o lugar ocupado é lugar indisponível, e há ainda a autorização simbólica que nenhuma estatística mede, pois enquanto o fundador permanece o sucessor administra em nome de outro. Daí vem o limite que exige rigor absoluto: sair a tempo é direito de quem pode, jamais dever de quem envelhece, sob pena de a tese degenerar em descarte do velho e política de exclusão etária. Quem precisa trabalhar aos setenta tem esse direito integralmente, e quem quer trabalhar aos oitenta também. A tese dirige-se a quem já colheu o suficiente e continua ocupando lugar por hábito, por vaidade ou por medo do silêncio. Quem se retira no tempo certo não abandona a obra, entrega a obra, e entrega inteira, com o lugar vago, que é a única forma de entrega que o mais novo consegue receber. Passear, contemplar, cultivar o que planto no Sítio Agrosofia e escrever quando me der vontade não é preguiça, é colheita, e a colheita, para quem é da terra, sempre foi a parte mais séria do trabalho.
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