AGRONEGÓCIO: os três eixos que definem a próxima década do campo

Falo desse tema de dentro dele.

NUNCA PRODUZIMOS TANTO, E NUNCA FOMOS TÃO QUESTIONADOS

O agro brasileiro vive um paradoxo que precisa ser dito com franqueza. O setor responde por cerca de um quarto da riqueza nacional e por quase metade das exportações do país, produz hoje mais de três vezes o que produzia há quatro décadas praticamente sem ampliar a área na mesma proporção, e ainda assim precisa explicar-se todos os dias, dentro e fora do Brasil. O que mudou definitivamente é que o mercado, o crédito e o consumidor passaram a cobrar prova daquilo que antes se aceitava por palavra.

SOLO VIVO É AMBIENTALISMO, AGRONOMIA E GESTÃO DE CUSTOS AO MESMO TEMPO. A agricultura regenerativa não é moda importada, é a sistematização daquilo que a extensão rural brasileira defende há décadas: cobertura permanente do solo, rotação de culturas, plantio direto de verdade, respeito à curva de nível, recomposição de matas ciliares e manejo por microbacia. O produtor que hoje mede e documenta o seu balanço de carbono estará, amanhã, vendendo com prêmio aquilo que o vizinho venderá com desconto.

A TRANSIÇÃO ENERGÉTICA É A OPORTUNIDADE MAIS SUBESTIMADA DA PROPRIEDADE RURAL. O produtor pode ser, ao mesmo tempo, consumidor e gerador. Energia solar para irrigação, resfriamento de leite e aviários, biogás e biometano a partir de dejetos transformando passivo ambiental em receita e em biofertilizante. Nas regiões de suinocultura e leite de Santa Catarina isso já não é projeto de futuro, é contabilidade do presente.

O GANHO DA TECNOLOGIA NÃO ESTÁ NO EQUIPAMENTO, ESTÁ NA DECISÃO QUE ELE PERMITE TOMAR COM ANTECEDÊNCIA. Mapas de produtividade, taxa variável, sensores, satélite, drones e inteligência artificial já cabem em um aplicativo. Valem, porém, duas advertências: modelo alimentado com dado ruim apenas erra mais rápido, e a decisão continua sendo do produtor e do agrônomo, que respondem pelo resultado, não do algoritmo.

A MAIOR BARREIRA À TECNOLOGIA NO CAMPO NUNCA FOI A MÁQUINA, FOI A CABEÇA. O extensionista e o técnico de cooperativa precisam ser digitalizados antes de digitalizar o produtor. E há uma pergunta que todo produtor deveria fazer antes de assinar qualquer contrato de plataforma: de quem é o dado da minha lavoura.

QUEM NÃO SABE O PRÓPRIO CUSTO NÃO NEGOCIA, APENAS ACEITA. O produtor brasileiro aprendeu a produzir muito bem e a administrar razoavelmente mal. Endividamento no campo raramente começa por má fé, começa por ausência de número. Custo por hectare e por saca, separação entre a conta da pessoa e a conta da empresa rural, fluxo de caixa projetado e resultado por atividade não são luxo de fazenda grande, são o mínimo para saber se aquilo que se planta dá lucro ou apenas movimenta dinheiro.

CONTRA A VOLATILIDADE NÃO EXISTE ADIVINHAÇÃO, EXISTE MÉTODO. Comercialização planejada em parcelas ao longo do ano, contratos a termo, mercado futuro, travas de câmbio e a disciplina de vender quando o preço remunera o custo, e não quando a esperança manda esperar mais. E a propriedade preparada é a que já respondeu à pergunta difícil: quanto tempo eu aguento sem receita se a próxima safra falhar.

O AGRO É FEITO DE GENTE ANTES DE SER FEITO DE GRÃO. No pátio da cooperativa as inquietações são sempre as mesmas: a margem apertada, a sucessão familiar, a imagem do agro diante de uma sociedade urbana que come todos os dias e raramente sabe de onde vem o alimento, e a saúde mental do produtor, que carrega sozinho decisões de milhões e não tem com quem dividir o peso. Quem planta e cria precisa ter mais alegria, e nenhuma tecnologia substitui a autoestima da família rural.

A TERRA DEVOLVE EXATAMENTE AQUILO QUE RECEBE, E NUNCA ENGANA QUEM A TRATA BEM. Sustentabilidade sem tecnologia vira intenção sem escala, tecnologia sem gestão financeira vira máquina cara em propriedade endividada, e gestão financeira sem sustentabilidade vira lucro de curto prazo em terra que se esgota. Os três eixos só sustentam o agro quando caminham juntos.

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