AGROSOFIA: A PEDAGOGIA DO CRIAR - O ALTAR ANTES DO PÃO: o cooperativismo como lei natural anterior à lei humana

A Agrosofia não é agricultura somada à filosofia. É o reconhecimento de que o gesto de semear já era, desde o primeiro dia, um ato de fé, de razão e de comunhão ao mesmo tempo.

Costumo dizer que prefiro as plantas que crescem aos bichos que correm. Não que um seja melhor do que o outro, mas os vegetais são o fundamento de tudo. É por isso que a minha caminhada é a de um agronatural, alguém que aprende com a raiz antes de aprender com o passo. E foi olhando para a terra, e não para os livros de direito, que cheguei à tese central deste artigo: o cooperativismo surgiu antes de o homem criar a lei. Ele não é invenção jurídica, é lei natural de sobrevivência e de bem viver.

A Agrosofia e o Conceito CRIAR

A Agrosofia se organiza numa escada de quatro degraus, resumida no verbo CRIAR. O C é o Criador, princípio de tudo, porque o homem adorou antes de perguntar. O R é a Riqueza natural, o mundo dado e não construído, o solo e a semente que ninguém inventou. O I é a Imagem, o homem que olha, reconhece e nomeia. E o A de Associativismo com o R de Realização são as organizações, o homem que se descobre incompleto e se organiza para colher e partilhar. Deus, natureza, homem e organização, nessa ordem, não porque alguém a escolheu, mas porque foi assim que aconteceu.

Os Pilares da Agrosofia: Lições da Terra

Alguns pontos que este texto sustenta e que valem a leitura atenta:

  • O culto precede o código. Ensinaram a gerações inteiras que primeiro o homem encheu a barriga e depois inventou Deus. A terra desmente isso. Göbekli Tepe, no sudeste da Turquia, é um santuário de onze mil e quinhentos anos erguido por gente que ainda não plantava. Não havia celeiro, havia templo. Não foi o pão que gerou o altar, foi o altar que exigiu o pão.
  • Plantar foi o primeiro ato de fé. Enterrar aquilo que se poderia comer é apostar que o que morre volta multiplicado. É ressurreição encenada com as mãos sujas de terra, milhares de anos antes de alguém escrevê-la num livro. Não à toa, o Cristo escolheu o grão de trigo que cai na terra e morre para explicar a própria morte. Ele não inventou a metáfora, usou a mais antiga que a humanidade já trazia no corpo.
  • A cooperação não foi decretada, foi selecionada. Plantar exige combinar quem guarda a semente, quem defende o campo, quem divide a colheita. Exige palavra dada e confiança que atravessa a estação inteira sem garantia de retorno. Quem plantou sozinho não colheu, e quem não colheu não deixou descendência. A terra é que impôs a união.
  • A Escritura já sabia disso. Não é bom que o homem esteja só, diz o Gênesis, antes da cidade e antes da norma. E o Eclesiastes é o mais antigo manual de cooperativismo que possuímos: melhor serem dois do que um, e a corda de três fios não se rompe facilmente. Faltavam ainda quase três mil anos para Rochdale.
  • O legislador chega sempre por último. O que Rochdale fez em 1844, e o que a Lei 5.764 fez no Brasil em 1971, não foi criar. Foi reconhecer, nomear e proteger. A lei humana é apenas a certidão de nascimento, lavrada muito depois de a criança já andar.

Agrosofia: Fé, Razão e Comunhão

A Agrosofia não é agricultura somada à filosofia. É o reconhecimento de que o gesto de semear já era, desde o primeiro dia, um ato de fé, de razão e de comunhão ao mesmo tempo. CRIAR é o que fizemos desde o princípio, e é o que ainda nos cabe fazer.

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