QUEM PERDE O VOCABULÁRIO PERDE A DOUTRINA: COOPERATIVISTA ALERTA QUE MOVIMENTOS TAMBÉM MORREM DE AFASIA
Ainor Francisco Lotério, engenheiro agrônomo, mestre em Gestão de Políticas Públicas, bacharel em Filosofia e em Teologia, extensionista rural e diácono permanente, publica em Camboriú, Santa Catarina, o artigo “As palavras do cooperativismo”, fruto de mais de quarenta anos ministrando cursos de doutrina e educação cooperativista. A advertência é direta: existem movimentos que morrem de falência e existem movimentos que morrem de afasia. Cada vez que um associado chama sobra de lucro, um dirigente chama assembleia de reunião ou um jovem chama cooperativa de empresa, ocorre uma perda de doutrina que nenhum balanço registra.
O texto reconstitui a origem desse idioma. Em 21 de dezembro de 1844, vinte e oito tecelões empobrecidos abriram um armazém modesto na Toad Lane, em Rochdale, e fundaram, sem saber, não apenas uma loja, mas uma língua. Precisando nomear o excedente devolvido aos sócios, não puderam usar lucro, que é remuneração do capital, e nasceu a sobra. Precisando nomear aquele que era ao mesmo tempo cliente e dono, não puderam usar nem cliente nem acionista, e nasceu o associado. Os princípios receberam a formulação atual no Congresso de Manchester, em 1995, mas a raiz continua sendo aquela loja pobre.
O autor sustenta que a saúde de uma cooperativa se diagnostica pelo vocabulário espontâneo do corredor, do pátio e da fila da assembleia, não pelos balanços, que qualquer contabilidade competente organiza bem. Onde o associado diz que vendeu para a cooperativa, há um cliente; onde diz que entregou sua produção, há um cooperado. Onde o dirigente diz meus associados, há um patrão disfarçado de presidente; onde diz nossos associados, há um mandatário consciente de que ocupa uma cadeira emprestada. O artigo organiza o léxico em seis famílias, estrutura, valores, princípios, gestão, economia própria e pessoa, e aponta três erros que precisam ser corrigidos: confundir sobra com lucro, que pertencem a mundos morais distintos; chamar de cooperante quem a Lei 5.764/1971 chama de associado; e tratar como reunião a assembleia geral, órgão soberano com edital, prazo, quórum e ata, cujas decisões vinculam até quem votou contra.
A raiz do compromisso é familiar. O pai do autor foi um dos fundadores do cooperativismo no Alto Vale do Itajaí, pioneiro da CRAVIL e do serviço de extensão rural, e lhe ensinou, antes de qualquer manual, que cooperar não é técnica de mercado, é forma organizada de amar o próximo. Daí a lei que a Agrosofia confirma: quem não sabe o nome da planta não sabe manejar a lavoura, e quem não sabe nomear o que possui não sabe defender o que possui.
Ao final, fica um convite prático. Levar a lista das palavras, conforme o artigo em PDF abaixo, para a próxima reunião de núcleo, ler em voz alta, termo por termo, perguntar ao grupo o que cada um significa, corrigir o vocabulário nos comunicados, nas atas e nas falas de abertura, e ensinar as palavras aos jovens antes de ensinar indicadores. O cooperativismo não desaparece por quebra, desaparece quando as palavras que o distinguem vão sendo trocadas, uma a uma, pelas do mercado comum, até que não sobre nenhuma diferença para explicar aos filhos.
Contato para Palestras e cursos: ainorfloterio@gmail.com | (47) 99967-5010 | https://loterio.com.br/contato/