AS PALAVRAS SÃO PERFORMANCE E O COMPORTAMENTO É CONFISSÃO? - A distância entre o que se diz e o que se é, e por que o caráter só se lê na safra do tempo

A palavra não é o contrário do comportamento. Ela é uma espécie de comportamento, e das mais decisivas. O compromisso público cria uma dívida com a própria consciência.

A PALAVRA PROMETE, O COMPORTAMENTO PAGA, E O CARÁTER É O SALDO APURADO EM ANOS

Chamada de leitura

Circula pelas redes, com ares de sabedoria definitiva, a sentença de que as palavras são performance e o comportamento é confissão. Ela acerta no essencial, porque falar é barato e agir é caro, mas erra em três pontos que quase ninguém examina: a palavra também é ato, o gesto também é palco e a circunstância também confessa. Este artigo faz esse exame e propõe o critério agrosófico da safra.

Leia na íntegra em: AS PALAVRAS SÃO PERFORMANCE E O COMPORTAMENTO É CONFISSÃO?, disponível aqui: https://loterio.com.br/?jfb_pdf=44353


1. O QUE A FRASE ACERTA: O PREÇO DA COLHEITA

A sentença não tem autor conhecido, nasceu no ambiente digital, onde as frases curtas viajam mais rápido do que as ideias longas, mas repete uma intuição antiga e respeitável. O Evangelho já havia dito que “pelos seus frutos os conhecereis” (Mt 7,16), Tiago escreveu que a fé sem obras é morta (Tg 2,17), Aristóteles ensinou que a virtude se forma pelo hábito e não pela declaração de intenções, e os economistas criaram a noção de preferência revelada, segundo a qual vale a escolha que custou alguma coisa, não a que foi apenas anunciada. O acerto está na assimetria de custo, porque falar é barato e agir é caro, de modo que o comportamento carrega mais informação por unidade, já que quem paga o preço revela o que de fato valoriza, mesmo quando não pretendia revelar nada. Prometer presença não custa nada, estar presente custa uma tarde, uma viagem, uma noite mal dormida. Dizer que a cooperação é um valor não custa nada, dividir o resultado, abrir a informação e ceder espaço custa poder. Como agrônomo reconheço nisso o velho instinto de quem vive da terra, pois o agricultor não discute a lavoura pelo diálogo do vizinho, ele olha o talhão, e não pergunta se houve intenção de adubar, pergunta pela cor da folha.

2. O PRIMEIRO ERRO: A PALAVRA TAMBÉM É ATO

A oposição que a frase monta é falsa já na origem. John Austin mostrou que dizer é fazer, pois prometer, votar, absolver, benzer, demitir, diagnosticar e caluniar são atos que não existem fora da palavra. Quando alguém humilha o filho com a voz, isso não é performance, é conduta, e das mais graves. Quando um líder assume um compromisso diante da assembleia, ele não encenou, contraiu uma dívida. A palavra não é o contrário do comportamento, é uma espécie de comportamento, e das mais decisivas. Quem despreza inteiramente o dizer perde justamente o instrumento pelo qual o homem se obriga a ser melhor amanhã do que é hoje, porque o compromisso público cria uma dívida com a própria consciência, e é dessa dívida que muita virtude nasce.

3. O SEGUNDO ERRO: O COMPORTAMENTO TAMBÉM É PALCO

Erving Goffman demonstrou o que qualquer pessoa experiente já percebeu, que a conduta é tão encenada quanto o discurso. Existe a filantropia fotografada, a pontualidade que só aparece diante do chefe, a devoção exibida no templo e esquecida no portão, a doação anunciada antes de ser feita. Se as palavras podem mentir, os gestos também mentem, e mentem melhor, porque a frase da moda nos convenceu de que eles não mentem. Esse é o perigo mais sutil do aforismo, pois ele desarma nossa suspeita exatamente onde a encenação é mais eficaz. Quem quer enganar de verdade já não gasta discurso, gasta gesto.

4. O TERCEIRO ERRO: A CIRCUNSTÂNCIA TAMBÉM CONFESSA

A psicologia social vem repetindo, desde os experimentos clássicos do século passado, que o comportamento confessa tanto a circunstância quanto o caráter. O homem que não ajudou pode estar exausto, e não insensível. O funcionário que se calou pode estar com medo, e não de acordo. O jovem que desistiu pode estar sem meios, e não sem vontade. Ler todo comportamento como confissão da alma é transformar em sabedoria de púlpito aquilo que os estudiosos chamam de erro fundamental de atribuição. Um ato isolado não confessa ninguém, assim como uma lavoura não se julga por uma planta, nem uma safra por um dia de estiagem. Há ainda um problema moral na palavra confissão, que vem do vocabulário religioso e jurídico e carrega consigo a figura do juiz, de modo que quem observa se instala automaticamente no lugar de quem sentencia. Na prática a frase costuma ser aplicada com dois pesos: para os outros, o ato revela quem eles são; para mim, o ato revela o que eu estava enfrentando.

5. A LEITURA AGROSÓFICA: SEMENTE, LAVOURA E SAFRA

A formulação que defendo não é de oposição, é de tensão ao longo do tempo. A palavra é semente, o comportamento é lavoura, o caráter é a safra, e safra não se apura em um dia. Quem observa uma pessoa por uma semana vê performance dos dois lados, na fala e no gesto. Quem convive por vinte anos vê outra coisa, vê se a semente virou pão, porque ninguém sustenta encenação por duas décadas, em dias de chuva e de seca, diante de plateia e diante de ninguém. O critério agrosófico não é o gesto isolado nem a frase bonita, é a repetição, é o padrão, é a fidelidade que se mantém quando ninguém está olhando, porque a fidelidade, ao contrário do aplauso, não precisa ser vista para existir.

6. O EXEMPLO QUE FECHA A QUESTÃO

José de Nazaré não tem uma única palavra registrada nos Evangelhos. Decidiu, protegeu, conduziu, trabalhou e assumiu a paternidade de um filho que não gerou. A ele faltou voz, não presença, e se a sentença da moda estivesse inteiramente certa, José seria a prova cabal, o homem que confessou tudo sem dizer nada. Mas há o outro lado, pois do mesmo Evangelho vem a advertência de que “de toda palavra ociosa que os homens disserem hão de dar conta no dia do juízo” (Mt 12,36). A Escritura não absolve a palavra como se fosse mera encenação, ela a responsabiliza, e silêncio e discurso são julgados pelo mesmo tribunal, porque ambos são conduta. A frase, portanto, é aforismo bom para acordar e ruim para concluir. A vida honesta não se prova em uma frase nem em um gesto, prova-se na safra, ano após ano, na coerência paciente entre o que se semeia com a boca e o que se colhe com as mãos.


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