COAGÊNCIA E EMPREENDIMENTO COLETIVO NO COOPERATIVISMO: o agir junto, a ação que só existe porque duas ou mais vontades a sustentam ao mesmo tempo.

A origem da palavra, seu significado mais profundo e sua ligação com a cooperação, o cooperativismo e a cooperativa

A PALAVRA COAGÊNCIA  GUARDA O SEGREDO.
Coagência vem do latim: o prefixo co, que significa junto, ao lado de, na companhia de, somado a agere, agir, conduzir, pôr em movimento. Coagência é literalmente o agir junto. Ao lado dela está cooperação, de cum mais operari, trabalhar numa mesma obra. A diferença é decisiva: cooperar é trabalhar junto numa obra que já existe, e a coagência é agir junto antes mesmo de a obra existir. Primeiro as pessoas se reconhecem como agentes umas diante das outras, depois decidem agir na mesma direção, e só então a obra comum aparece. A coagência é o solo, a cooperação é o cultivo, a cooperativa é a colheita organizada e permanente.

NA COAGÊNCIA, NINGUÉM VIRA ENGRENAGEM.
Não se trata da soma aritmética de esforços individuais, mas de autoria compartilhada: o resultado não pode ser atribuído a um só e, ao mesmo tempo, não dissolve ninguém no anonimato do grupo. Cada pessoa permanece sujeito. E daí nasce a exigência ética que sustenta tudo: quem age junto responde junto. É exatamente esse ponto que separa um ajuntamento de uma comunidade. No ajuntamento, cada um responde por si. Na comunidade, todos respondem pelo todo sem deixar de responder por si. Sem corresponsabilidade não há empreendimento coletivo verdadeiro, apenas conveniência temporária.

É POR ISSO QUE O VOTO NÃO SEGUE O CAPITAL, SEGUE A PESSOA.
Um associado, um voto: a tradução institucional da coagência, pois se todos agem, todos pesam igualmente na decisão. Os pioneiros de Rochdale, em 1844, não inventaram apenas um armazém, inventaram um método de agir junto, com regras claras, capaz de sobreviver a quem o criou. Participação democrática é coagência na decisão. Solidariedade é coagência na dificuldade. Autonomia é coagência sem tutela externa. Quando a assembleia se esvazia e a cooperativa passa a ser tratada como um fornecedor qualquer, a coagência se degrada em simples delegação, e a instituição começa a perder o que a distingue, ainda que os números pareçam bons por algum tempo. No campo isso é visível a olho nu: a propriedade que sozinha não teria escala nem poder de negociação, articulada em cooperativa, acessa mercado, crédito, assistência técnica e agroindustrialização. A produção continua sendo de cada família, a força passa a ser de todas.

E há o efeito que nenhum balanço registra: a coagência produz pertencimento. Quem se sabe coautor de um empreendimento cuida dele de outro modo, defende-o, apresenta-o com orgulho e traz o filho para conhecer. Esse capital social é o ativo mais difícil de construir e o mais fácil de perder. Por isso não basta associar pessoas, é preciso formá-las para o agir conjunto, a cada geração, sob pena de a cooperativa manter a forma e perder a alma. Quem age sozinho pode ir mais rápido em alguns trechos. Quem age junto vai mais longe, vai com mais gente e deixa caminho aberto para os que vêm depois.

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