Você já ouviu ou até, quem sabe, já foi personagem de conversas encardidas. Conversas do tipo que só demonstram nossa pouca vontade de viver, transformando-nos em meros espectadores do azar ao longo do caminho.
Nunca me esquecerei daquela conversa que ouvi de duas comadres num final de tarde.
Uma chegou à outra e perguntou:- “Como vai, comadre?”, ao que a outra imediatamente respondeu: – “Ah, comadre, nem te conto, estou mais ou menos. Pra te dizer a verdade, comadre, estou mesmo quase acabada. Minha vida está uma porcaria, não consigo colocar as coisas em ordem. Agora, para piorar ainda mais, minha filha se separou do marido, depois de três anos de casados. Meu filho menor entrou pro mundo das drogas. Meu marido resolveu beber, depois que tivemos duas safras ruins e o banco se tornou nosso maior sócio. Na verdade, comadre, não sei mais o que fazer. Até já tenho pensado que melhor seria morrer”.
Aquele papo encardido continuava. Aquela mulher falava sempre, sem dar chance para a outra interpor alguma palavra, que ao menos desse a impressão de um diálogo. E ela continuava seu monólogo imaginando que, ao final da choradeira, a outra mulher lhe
dissesse: – “Comadre, você é a pessoa mais sofrida que eu já vi, e olha que tenho falado com muita gente sofrida. Mas tu és a pessoa mais sofrida do mundo. Não sei como agüentas mulher”.
Mas que nada, quando ela parou um pouco para respirar, ou talvez para ouvir uma palavra de conforto, a outra entrou, emendando a choradeira, dizendo assim:
– “Comadre, tu não sabes como eu estou. Eu é que estou acabada. O que tu estás passando não é nada perto do meu sofrimento. Eu não sei como ainda estou viva. Acho que não vale a pena sofrer tanto”.
Pare e pense um pouco: nós não somos quase todos assim, ou então temos a tendência em fazer o mesmo em nossas conversas diárias?
Sempre queremos que os outros nos achem a pessoa mais sofrida do mundo. Queremos que digam: – “Como você agüenta tudo isto? Não sei como você ainda está viva?”.
Os homens sempre com aquele papo galinha-d’angola, sempre dizendo pelos terreiros da vida, num cacarejar miúdo: “to fraca, tô fraco, to fraca, to fraco”
… Exatamente como fazem as galinhas d’angola, ou angolistas, aves barulhentas, trazidas da Guiné Bissau para o Brasil, que cantam sem cansar, como se estivessem dizendo: estou fraca, estou, estou fraca.
Mude essa rotina hoje mesmo. Diga sempre, quando perguntarem como vai você:
-“Cada vez melhor”. Caso pareça arrogância, diga então: – “Vou cada vez melhor, e melhor ao vê-lo”. Ou: -“tudo ótimo, ao vê-la”. Não diga: “mais ou menos, não tão bem como você, a gente vai levando, a coisa ta feia, é ta difícil, não ta fácil”…, e outras expressões que querem dizer o mesmo que “cada vez pior!”.
Eu termino perguntando: – “Como vai você?”. Mesmo que tenha problemas, responda em seu íntimo: – “Cada vez melhor. Cada dia melhor”. Faça isto mesmo que esteja enfrentando dificuldades, pois o objetivo da vida, mesmo parecendo difícil, é ir cada vez melhor. Não é para isto que trabalhamos, que amamos, que estudamos, que vivemos?
E com relação aos nossos filhos, em nossa casa continuemos procedendo da mesma maneira, para que eles enxerguem exemplos fortes de pessoas que sabem vencer dificuldades. Pessoas que sabem que mesmo o aparente fracasso pode ser a ponte do recomeço. Os mais novos precisam saber e entender que há momentos difíceis, encruzilhadas, dúvidas, mas que isto não deve ser motivo de esmorecimento.
Os que existem há pouco tempo precisam encontrar desde cedo gente animada com a vida. Gente nova precisa encontrar bem cedo, de preferência dentro do lar quem os pergunte sempre: – “como vai você?”, para que eles busquem respostas que sejam cada vez melhores e não cada vez piores.