“EU ENTENDO VOCÊ”. São três palavras que a maioria confunde com concordar, e que são outra coisa, muito maior.
Entender não é dar razão. É chegar até onde o outro está e reconhecer que ali existe uma pessoa inteira, com um motivo, uma dor, uma história que faz sentido de dentro dela, ainda que eu veja diferente. Posso entender sem concordar. Posso dizer “eu entendo você” e, em seguida, discordar com toda a firmeza, sem que a frase perca a verdade. Porque o que ela afirma não é que você tem razão, mas que você não está sozinho aí dentro, porque eu cheguei até você.
É por isso que essas palavras tocam tão fundo. Elas atendem à mais silenciosa das fomes humanas, que não é a de ser aplaudido nem a de ser corrigido, mas a de ser visto. A maioria das pessoas atravessa a vida sentindo-se um pouco invisível, presente no cômodo e ausente no olhar dos outros. “Eu entendo você” quebra esse isolamento. Diz ao outro que ele foi, enfim, alcançado por alguém que parou, escutou e ficou.
Repare que essas três palavras são a tríade inteira condensada. Para dizê-las de verdade, é preciso presença, estar ali, sem pressa, com a atenção toda voltada para quem fala, porque não se entende de longe nem distraído. É preciso amor, o desejo real do bem do outro, que me faz sair de mim e ir até ele, em vez de exigir que ele venha até mim. E há nelas um poder sereno, não o de dominar, mas o de acolher, que é a força mais difícil de todas, porque exige calar o próprio impulso de responder, julgar ou consertar. Entender é mais custoso do que aconselhar. Aconselhar mantém-me no centro; entender coloca o outro lá.
Há, porém, uma condição que separa a frase verdadeira da fórmula vazia, e quem vive o púlpito e o palco sabe disso melhor do que ninguém. “Eu entendo você” só toca fundo quando é verdade. Dita como técnica, para conquistar ou para encerrar a conversa, o outro sente na hora: soa a manobra e fere mais do que o silêncio. Ela exige que se tenha, de fato, escutado antes de pronunciá-la. Entender é consequência de ter ouvido, nunca substituto do ouvir. Quem diz sem ter escutado, mente; quem escuta de verdade quase não precisa dizer, porque o outro já sentiu, na qualidade da atenção, que foi compreendido.
E talvez seja essa a forma mais pura de amar com a palavra: não a que explica, não a que corrige, não a que ensina, mas a que, tendo chegado até o outro em silêncio, é capaz de dizer com honestidade que ali esteve. “Eu entendo você” é semente plantada no tempo certo, no solo certo, do jeito certo. É a comunicação inteira reduzida ao seu núcleo. É presença que transborda em três palavras.
SOBRE O AUTOR
Ainor Francisco Lotério é agrônomo, filósofo, teólogo, diácono permanente e palestrante profissional, residente em Camboriú, Santa Catarina. Criador da Agrosofia, filosofia de vida que integra a sabedoria agrícola, os valores humanísticos e a espiritualidade, mantém no Cooperativismo o seu segundo eixo temático central. Apresenta desde 1989 o programa de rádio Alegria de Viver. Seus conteúdos estão reunidos nos portais www.ainor.com.br e www.loterio.com.br.