MEU DEUS E MEU TUDO: CINCO PALAVRAS QUE ATRAVESSAM A NOITE MAL DORMIDA. Não é oração de pedido, é oração de pertença, e funciona justamente quando nenhuma outra funciona. Otimismo é achar que tudo dará certo. Esperança é a certeza de que, dando certo ou não, Deus não se retira. Nessas horas não se consegue orar longamente. Consegue-se pertencer.
RESSALVA: ESTE TEXTO NÃO REJEITA NINGUÉM
O que aqui se escreve nasce da fé cristã e assume-a com serenidade, mas não foi escrito para separar. Foi escrito para aproximar. A noite mal dormida, o cansaço de sustentar sozinho, a gratidão que precisa ser exercitada quando não vem espontânea e a diferença entre otimismo e esperança pertencem à condição humana inteira, e não a um grupo. Quem crê de outro modo, ou quem ainda não crê, encontrará aqui algo que reconhece, porque a experiência é a mesma antes de receber nome.
“MEU DEUS E MEU TUDO”
São Francisco de Assis (conheça a hisória de vida dele) repetiu esta oração a noite inteira, segundo os testemunhos antigos, sem conseguir dizer outra coisa. Cinco palavras apenas, e nenhuma delas pede alguma coisa. Quem a diz não está negociando com Deus, está reconhecendo a quem pertence.
A NOITE NÃO É ABANDONO
A primeira consolação da fé é também a mais difícil de aceitar: a noite escura não é sinal de que Deus se ausentou. São João da Cruz ensinou que há noites que purificam, que retiram da alma os apoios secundários para que ela se firme apenas no essencial. O que parecia enorme às três da manhã encontra o seu tamanho verdadeiro às nove. E o que permanece grande depois do amanhecer, esse sim merece ser tratado com seriedade. Na barca, no meio da tempestade, Jesus dormia na popa. A tempestade era real, o medo era real, e o naufrágio não era. Nem toda agitação anuncia catástrofe. Muitas anunciam apenas que chegamos ao limite de carregar sozinhos.
DEUS RESPEITOU O CORPO ANTES DE FALAR À ALMA
Quando Elias chegou ao fim das forças, sentou-se debaixo de um junípero e pediu a morte. Deus, que poderia ter enviado uma revelação, enviou um anjo com pão e água e mandou que ele dormisse. Só muito depois, no monte Horeb, veio o encontro, e não no vento forte, nem no terremoto, nem no fogo, mas numa brisa suave. É uma das páginas mais consoladoras da Escritura para todo homem que trabalha demais e cobra demais de si mesmo.
RESSALVA: CADA UM COM O SEU DISCERNIMENTO
Cristo disse de si mesmo que é o caminho, a verdade e a vida, e quem escreve estas linhas o afirma com convicção. Mas convicção não é imposição. A própria obra da criação foi feita assim: Deus podia ter criado seres que obedecessem sem escolher, e criou seres livres, capazes de dizer sim e capazes de dizer não. Quem respeita o livre-arbítrio na origem não o suprime na chegada. Cada leitor tome deste texto aquilo que lhe fizer bem, no seu tempo e pela sua consciência. O sinal serve quando conduz, e trai quando retém. Quem impõe uma verdade pelo constrangimento perde a verdade e perde a pessoa.
A ESPERANÇA NÃO É OTIMISMO
O otimismo depende do resultado, a esperança depende da aliança. Por isso o otimismo quebra na primeira contrariedade séria, enquanto a esperança atravessa perdas, doenças, injustiças e madrugadas insones. Péguy chamou a esperança de a menor das três virtudes, a criancinha que caminha entre a fé e a caridade e que, no entanto, é ela quem puxa as duas irmãs mais velhas pela mão. É a virtude que parece frágil e é a que sustenta o passo. E Deus quase nunca responde por escrito. Ele responde por pessoas. A mão da esposa que toca no ombro para acalmar já é ministério. O filho que atende ao telefone e reorganiza o horário já é providência.
O TEMPO DE RAIZ
Esperar não é passividade. Esperar é uma forma ativa de fé, talvez a mais exigente de todas, porque obriga a suportar a ambiguidade sem preenchê-la com decisões apressadas. O mundo tem pressa, mas Deus não tem pressa com quem Ele ama. Uma semente de garapuvu leva anos até dar sombra, e ninguém acusa a árvore de lentidão. Quem planta floresta aprende teologia sem perceber. Aprende que a maior parte do trabalho de uma árvore acontece embaixo da terra, invisível, no período em que parece que nada está acontecendo, e que o agricultor que arranca a muda para conferir a raiz mata exatamente aquilo que queria salvar. A alma humana obedece à mesma lei. Há períodos em que a única coisa certa a fazer é não mexer.
A GRATIDÃO COMO CHÃO
Nas horas de confusão, a gratidão não é um sentimento, é uma disciplina. Ela não nega o problema, apenas se recusa a olhar somente para ele. Uma esposa amada ao lado por décadas. Filhos que trabalham e sustentam a casa. Netas que correm por um sítio que o avô plantou. Uma floresta nascendo onde antes não havia. Nada disso desaparece porque a noite foi difícil. A gratidão é o chão que impede a queda livre, e precisa ser exercida deliberadamente, sobretudo quando não vem espontânea.
O QUE DEUS COSTUMA RESPONDER
Abraão não recebeu o mapa, recebeu a direção. Moisés não recebeu o roteiro, recebeu o primeiro encontro. Maria não recebeu a explicação, recebeu a companhia. A fé nunca funcionou como planejamento estratégico revelado, mas como caminhada acompanhada. Por isso é legítimo terminar uma oração ainda sem saber o que se vai decidir, desde que se saiba com quem se caminha. A pergunta certa não é Senhor, o que devo fazer com os próximos dez anos. A pergunta certa é Senhor, o que devo fazer hoje, e Ele costuma responder essa.
UMA OBSERVAÇÃO FUNDAMENTAL: SÃO FRANCISCO DE ASSIS, PADROEIRO DA ECOLOGIA
Francisco Bernardone nasceu em Assis por volta de 1181 e morreu na Porciúncula em 3 de outubro de 1226. Foi canonizado por Gregório IX em julho de 1228, menos de dois anos depois da sua morte. Pio XII o proclamou padroeiro da Itália em 1939. E em 29 de novembro de 1979, pela carta apostólica Inter Sanctos, João Paulo II o declarou padroeiro celeste dos que promovem a ecologia.
Em 1225, já enfermo e quase cego, compôs em São Damião o Cântico das Criaturas, no qual louva o Senhor por meio do irmão sol, da irmã lua, do irmão vento, da irmã água, do irmão fogo e da irmã terra, nossa mãe, que nos sustenta e governa e produz variados frutos com flores coloridas e ervas. É o mais antigo texto poético da língua italiana e a mais bela profissão de fé sobre a criação já escrita.
Em 2015, o Papa Francisco abriu com o primeiro verso desse Cântico a Encíclica Laudato Si, sobre o cuidado da Casa Comum. Ali a Igreja afirma que a terra é nossa casa comum e nossa responsabilidade compartilhada, que tudo está interligado, e que não há duas crises separadas, uma ambiental e outra social, mas uma única e complexa crise socioambiental. O cuidado da criação e o cuidado dos pobres são a mesma causa. A isso se chama ecologia integral, e o seu rosto é o pobrezinho de Assis.
Francisco chamou o sol de irmão e a terra de mãe, deitou-se na terra nua para morrer e chamou a morte de irmã. Quem reconhece o sol como irmão não o explora. Quem chama a terra de mãe não a devasta. Foi por essa coerência que a Igreja o entregou como padroeiro a todos os que cuidam da Casa Comum.
LEIA O TEXTO COMPLETO
O corpo pede cuidado, e cuidar dele é obediência, não fraqueza. As decisões podem esperar, e esperá-las é fé, não covardia. A família será reunida, e ouvi-la é sabedoria, não abdicação. A floresta continuará crescendo devagar, como tudo o que dura. Quem consegue dizer meu Deus e meu tudo ao amanhecer, depois de não ter dormido, já recebeu a resposta principal. As outras virão no tempo delas. O texto integral, com as recomendações espirituais e práticas e as referências, está disponível em www.ainor.com.br e www.loterio.com.br.
Equipe AINOR LOTÉRIO — Palestras e Cursos
E-mail: ainorfloterio@gmail.com
WhatsApp: (47) 99967-5010