NEM TUDO QUE MUDA EVOLUI: a mudança humana a partir do par entropia e sintropia, articulando física, biologia, psicologia, sociologia e teologia.

Entropia e sintropia na vida humana: por que nem toda crença precisa ser quebrada e como distinguir a mudança que constrói daquela que apenas desgasta a pessoa

Todo ser humano muda. Muda o corpo, que envelhece sem pedir licença. Muda a psique, que se reorganiza a cada perda e a cada alegria. Muda a posição social, porque somos filhos, depois pais, depois avós, e cada um desses lugares exige um enquadramento novo. Discutir se devemos ou não mudar é perda de tempo, pois a mudança já está acontecendo enquanto discutimos.

A questão séria é outra. Toda mudança é para melhor? O jargão popular já desconfia disso quando diz que fulano mudou para pior. Existe mudança evolutiva e existe mudança involutiva. Existe mudança consciente, escolhida e conduzida, e existe mudança inconsciente, que acontece com todo ser vivo sem que ele perceba.

A LEI QUE DISPERSA E A LEI QUE REÚNE

A entropia, formulada por Rudolf Clausius, afirma que em um sistema isolado a energia tende a se dispersar e a desordem tende a crescer. O café esfria e nunca esquenta sozinho. A casa fechada acumula poeira. A cerca sem manutenção cai. O músculo sem uso atrofia. A amizade sem visita esfria. A instituição sem cuidado se burocratiza.

A entropia é a forma mais comum de mudança. Ela não precisa de projeto, de esforço nem de decisão. Basta deixar acontecer. Daí a primeira conclusão incômoda: a mudança espontânea, aquela que ocorre quando ninguém orienta nada, tende à degradação e não ao aperfeiçoamento.

Quem não conduz a própria mudança não permanece igual. Apenas se desgasta mais devagar do que percebe.

Existe, porém, movimento contrário. Schrödinger observou que o organismo vivo extrai ordem do ambiente para manter a própria organização. Fantappiè nomeou esse movimento de sintropia. E Prigogine demonstrou que estruturas altamente organizadas podem emergir do desequilíbrio, desde que atendidas três condições: abertura, fluxo constante de energia e, a mais esquecida de todas, uma estrutura estável que segure a flutuação.

Sem essa terceira condição, o desequilíbrio não gera ordem nova, gera colapso. Traduzindo para a vida: quem muda tudo ao mesmo tempo não evolui, desmancha.

A PROVA DE CAMPO

O agrônomo não precisa acreditar nessa teoria, pois ele a vê. Ernst Götsch comprou nos anos oitenta uma área degradada no sul da Bahia, chamada então Fugidos da Terra Seca. Trabalhando segundo a lógica da sucessão natural, recuperou centenas de hectares, reflorestou, produziu cacau de alto valor e viu ressurgirem quatorze nascentes. A propriedade passou a chamar-se Fazenda Olhos d’Água.

Três lições se impõem. Götsch não quebrou os princípios da natureza, obedeceu-os com mais rigor. O instrumento central do sistema é a poda, e poda não é destruição, é estímulo orientado que manda a planta rebrotar com mais vigor. E nada disso acontece sem tempo e sem sucessão, porque cada espécie ocupa seu estrato e sua época.

Sintropia é mudança acelerada por quem respeita o ritmo, e não por quem o atropela.

O EQUÍVOCO DE QUEBRAR PARADIGMAS

Repete-se em palcos e treinamentos que é preciso quebrar paradigmas, como se isso fosse valor em si. Ora, quem criou o conceito foi Thomas Kuhn, e ele afirmou quase o contrário do que hoje se prega em seu nome. Para Kuhn, a imensa maioria do trabalho científico é ciência normal, feita dentro de um paradigma que funciona e que por isso deve ser conservado. A revolução só se justifica quando as anomalias se acumulam e quando já existe uma alternativa melhor disponível.

Trocar de paradigma sem ter outro é ficar sem nenhum.

Muitas crenças não precisam ser quebradas, precisam ser honradas. Foram elas que nos trouxeram até aqui. A palavra empenhada, o trabalho como dignidade, o domingo em família, a confiança no vizinho, a poupança antes do gasto, o respeito aos mais velhos, a fé recebida dos pais. Nada disso é obstáculo ao futuro. É a estrutura estável de que fala Prigogine.

Quem derruba tudo em nome do novo costuma descobrir tarde que derrubou também a viga que sustentava o telhado.

SEIS PERGUNTAS ANTES DE MUDAR

Origem: esta mudança nasce de dentro ou de uma pressão externa? Alerta quando ela só existe porque alguém disse que está na moda.

Raiz: ela preserva minha identidade e meus valores fundantes? Alerta quando exige que eu deixe de ser quem sou para ser aceito.

Fruto: que fruto ela dará daqui a cinco e a vinte anos? Alerta quando só apresenta vantagens imediatas.

Custo: quem paga a conta desta mudança? Alerta quando a conta cai sobre a família ou sobre a equipe.

Volta: se der errado, é possível retornar? Alerta quando queima pontes que não podem ser reconstruídas.

Tempo: ela respeita a sucessão natural das etapas? Alerta quando promete colheita sem cumprir o ciclo.

A PODA E A METANOIA

A teologia tem palavra precisa para a mudança evolutiva consciente. Metanoia não significa arrependimento sentimental, e sim mudança do próprio modo de pensar. E oferece, na primeira carta aos Tessalonicenses, o critério mais econômico já escrito sobre o assunto: examinai tudo e retende o que é bom. Examinar tudo impede o obscurantismo. Reter o que é bom impede a dissolução.

A agroteologia acrescenta a imagem decisiva, a da videira em João 15,2. O Pai poda o ramo que já dá fruto, para que dê mais fruto. Note-se o rigor da frase. Não se poda o ramo seco por castigo, poda-se o ramo produtivo por promessa.

Essa é a diferença exata entre a mudança que constrói e a mudança que desgasta. Uma tem podador. A outra tem apenas vento e cupim.

MUDANÇA ORIENTADA

A bicicleta que uso nas palestras resume tudo. Ela só se equilibra em movimento, e portanto parar é cair, o que confirma que a mudança é condição e não opção. Mas ela também exige quadro rígido, porque se o quadro cedesse não haveria bicicleta alguma. E há a marcha, que se troca conforme a subida real do terreno, e nunca conforme a marcha que o outro ciclista escolheu.

Mudança orientada é isto: pedalar sempre, manter firme o quadro, trocar a marcha com critério e olhar a estrada em vez de olhar para o vizinho.

Quem assim procede não teme o amanhã, porque leva consigo aquilo que sustenta qualquer travessia, a aliança plena entre Deus, o próprio eu e a pessoa com quem se vive. O resto muda, e deve mudar. Esse triângulo permanece, e é justamente por permanecer que ele torna toda mudança suportável.

BAIXE O TEXTO COMPLETO

O que está aqui é o essencial. O arquivo completo aprofunda cada ponto: as duas leis que governam tudo o que existe, as três condições de Prigogine, o enquadrar e reenquadrar de Piaget, o diagnóstico de Bauman sobre a mudança virada mercadoria, o quadro das quatro mudanças e as referências que sustentam o argumento.

Contato para palestras e outros detalhes a conversar:

E-mail: ainorfloterio@gmail.com ou contato@ainor.com.br
WhatsApp: (47) 99967-5010
Formulário no site: https://loterio.com.br/contato/

NEM-TUDO-QUE-MUDA-EVOLUI.pdf Clique para abrir ou baixar o PDF