O MENINO ASMÁTICO
Está disponível para leitura, em PDF, o texto completo “O menino asmático: aquele que não podia respirar, mas sonhava“, memória de família escrita por Ainor Francisco Lotério sobre o irmão mais velho, Ailor Lotério.
O FÔLEGO CURTO E O SONHO LONGO
Numa casa de onze filhos, o mais doente foi o que quis estudar.
Nascido em 1960, Ailor teve a asma como companheira desde o começo, num tempo em que faltava remédio e sobrava poeira. Como a lavoura o adoecia sem descanso, os pais decidiram que ele não poderia ficar nela. Em 1975 veio para o Colégio Agrícola de Camboriú, onde encontrou disciplina firme, rotina de estudo e algum alívio para a respiração.
A PORTA QUE SE ABRIU
Ele abriu a porta da sala e entregou o papel na minha mão. Eu nunca esqueci aquela porta se abrindo.
Único da família numerosa a estudar, voltava para casa com uma ideia fixa: convencer os pais a mandar também o segundo filho. Foi ele quem fez a inscrição do irmão para o exame de seleção e a levou pessoalmente até ele. A mãe fez a parte dela, indo de charrete até Ímbuia com livros antigos debaixo do braço para pedir apoio à diretora, e copiando à mão as matérias atrasadas.
O LEGADO QUE JÁ VEM PRONTO
Quem tem pouco e reparte, reparte tudo.
Ao chegar ao colégio, o autor encontrou o caminho aberto: professores que estimavam o irmão, colegas que perguntavam por ele, um carinho já construído que apenas recebeu. Usou até os sapatos dele, andando com dificuldade dentro daqueles sapatos, mas andando. Quando recebeu o primeiro salário, o irmão veio visitá-lo e deixou um dinheirinho na sua mão.
A DOENÇA DE UM ABRIU A ESCOLA PARA TODOS
O que parecia castigo virou porta. O que parecia limitação virou herança.
Depois do segundo filho, todos os irmãos e irmãs que quiseram puderam estudar ou foram incentivados a isso, numa época em que, nas famílias numerosas, os filhos ficavam para a lavoura e ponto final. A asma que quase levou o irmão foi o que o tirou do campo e o colocou dentro de uma escola. Da escola nasceu a ideia de mandar o segundo. Do segundo veio o caminho para todos os outros.
A INTERRUPÇÃO E A CONTINUIDADE
Herdei do meu irmão mais do que os sapatos. Herdei a primogenitura.
Cooperativista, gerente de cooperativa, comunicativo e presente no grupo de jovens da cidade, Ailor morreu aos dezenove anos, um ano depois da formatura, em acidente com máquina agrícola. O irmão pensou em desistir dos estudos. Foi o pai, justamente aquele que queria segurá-lo na agricultura, quem lhe disse para seguir. Ele ficou, formou-se, casou-se em Camboriú e construiu uma carreira de quatro décadas.
O NOME QUE A COMUNIDADE ESCOLHEU
Nenhuma doença é grande o bastante para caber dentro de um sonho.
Anos depois, já como prefeito de Camboriú, coube ao autor inaugurar uma escola no bairro Monte Alegre, em 1994. O nome foi escolhido pela própria comunidade, em plebiscito. Escolheram o do irmão. Hoje o CAIC Jovem Ailor Lotério atende cerca de mil e quinhentas crianças.
Ainor Francisco Lotério é Engenheiro Agrônomo, Bacharel em Teologia e em Filosofia, M. Sc em Gestão de Políticas Públicas e Diácono Permanente. Criador da Agrosofia e da Agroteologia, atua como palestrante em formações com equipes, cooperativas, famílias e comunidades.