A PERGUNTA QUE ABRE O ARTIGO: a divisão do mundo em duas colunas é mesmo exaustiva? A dicotomia do controle é hoje a fórmula filosófica mais repetida no Ocidente. Ocupa manuais de gestão, protocolos terapêuticos, sermões e discursos de formatura, e sua força reside na simplicidade: divida o mundo entre o que está ao seu alcance e o que não está, invista tudo no primeiro e receba o segundo com serenidade. O artigo sustenta que a divisão não é exaustiva, porque existe uma terceira região do real, irredutível às duas primeiras, que compreende aquilo que ninguém realiza sozinho e que ninguém deveria delegar a um terceiro.
Muito do que classificamos como impossível não era impossível: era impossível sozinho.
O PLURAL ESTAVA NA GRAMÁTICA, NÃO NA DOUTRINA. Epicteto não escreve “o que depende de mim”. A expressão que abre o Encheirídion está em primeira pessoa do plural, literalmente “o que está sobre nós”. O plural já se encontra na língua. O que não se encontra é uma teoria do plural. Os estoicos leem esse “nós” de modo distributivo, como soma aritmética de muitos “eus”, jamais como sujeito de ação em sentido próprio. Ao propor três colunas, o artigo não acrescenta ornamento ao esquema antigo, restitui o plural que a fórmula original já carregava e que a doutrina não soube desdobrar.
O ESTOICISMO NÃO NEGA A TERCEIRA COLUNA, ELE A DISSOLVE. Seria injusto acusar os antigos de haverem esquecido a comunidade. O problema não está na ética, está na classificação. Quando chega o momento de repartir o real, a intenção, o esforço e a constância vão para a primeira coluna, e o resultado da obra comum vai para a segunda, na condição de indiferente preferível. A terceira coluna não é rejeitada, é triturada entre as outras duas. E o que sobra de cada lado, quando se tenta somar novamente, não reconstitui o que havia antes.
Este é um resumo. O artigo completo, com a fundamentação filológica, a discussão da filosofia da ação contemporânea, a economia institucional dos bens comuns, a subsidiariedade, a sinodalidade e a doutrina cooperativista, está disponível em PDF nos portais do autor.
NEM MEU, NEM ALHEIO: NOSSO. Fomos educados a pensar o mundo em regime de propriedade, segundo a fronteira entre o que é meu e o que é alheio. O que é de todos, precisamente por não ser de ninguém em particular, cai num vazio de nomeação e converte-se em “de ninguém”, que na prática significa terra de quem chegar primeiro. Existe, contudo, um regime que não é nem um nem outro: a água da bacia hidrográfica, a estrada vicinal, a confiança que faz circular o crédito numa comunidade rural, a fertilidade de um solo compartilhado por dez propriedades vizinhas.
Esse “nosso” não é um “meu” diluído por dez, nem um “alheio” atenuado pela vizinhança. É uma terceira forma de pertencer, dotada de lógica própria.
O QUE SE PERDE CHAMA-SE COAGÊNCIA: minha contribuição é necessária e insuficiente, e a insuficiência não é acidente, é estrutura da própria coisa. A cooperativa que não fundo sozinho. A lavoura que não colho sozinho. A paz que não faço sozinho. Não é “depende de mim” com estorvos, nem “não depende de mim” acompanhado de um voto piedoso. É um regime condicional e recíproco, que só passa a existir se cada um se comprometer contando com o compromisso do outro, e sabendo que o outro conta com o seu.
A VIRTUDE QUE ESTÁ NO MEIO: o altruísmo não é o oposto do egoísmo, é a sua imagem espelhada. Ambos operam na mesma gramática de soma zero, apenas invertendo o sinal. O egoísta fica com tudo, o altruísta abre mão de tudo, e nenhum dos dois construiu coisa alguma em comum. Entre os dois vícios situa-se a justiça, e sobretudo a amizade, que une pessoas que permanecem duas e ainda assim querem o bem uma da outra.
A amizade não exige que eu me anule, nem que eu me imponha. Exige que eu queira um bem que só existe entre nós.
O BEM COMUM NÃO É A SOMA DOS BENS PARTICULARES. Tomás de Aquino ofereceu a essa intuição a formulação mais precisa de que dispomos: é um bem que resulta maior para cada um precisamente por ser de todos. Quem dele participa nada perde ao partilhá-lo, ganha mais por partilhar. É o oposto exato da lógica de soma zero, e é neste ponto que a terceira coluna deixa de ser tese de classificação e se converte em tese sobre a natureza do bem.
A DUPLA DEGENERAÇÃO: pelo lado do egoísmo, a cooperação vira instrumento; pelo lado do altruísmo mal compreendido, vira dissolução. No primeiro caso, coopero enquanto me convém, e o “nós” funciona como máscara de um “eu” calculista. No segundo, ninguém responde por nada porque todos respondem por tudo, e o grupo termina protegendo o incompetente em nome da fraternidade. A virtude do meio exige as duas coisas ao mesmo tempo, um “eu” inteiro, capaz de responder pelo que fez, e um “nós” real, capaz de fazer o que nenhum eu faria.
SUBSIDIARIEDADE: não transferir à instância maior o que a menor pode realizar, nem ao grupo o que a pessoa pode fazer por si. Sem esse princípio, a terceira coluna degenera em duas direções opostas. Para cima, quando o “nós” é absorvido pelo Estado e a comunidade se torna mera destinatária de políticas concebidas alhures. Para baixo, quando “depende de nós” se converte no nome elegante de “não é comigo”.
Toda diluição de responsabilidade encontra abrigo num plural. O “nós” que não é composto de “eus” responsáveis é apenas uma multidão.
DOIS GRAUS DO MESMO PLURAL: o associativismo é a forma leve, o cooperativismo é a forma densa. A associação soma esforços, representação e voz, com baixo custo de entrada e flexibilidade, mas não opera no mercado em nome dos associados. A cooperativa acrescenta operação econômica, propriedade coletiva, gestão democrática e distribuição de sobras. Quem espera de uma associação o que só uma cooperativa realiza termina decepcionado, e quem constitui uma cooperativa para resolver o que uma associação resolveria carrega peso institucional desnecessário.
Não se decreta uma cooperativa. Ela requer um “nós” que já exista antes do estatuto.
A SEQUÊNCIA QUE AS COMUNIDADES RURAIS CONHECEM: primeiro o mutirão, depois a associação, depois a cooperativa. Cada etapa acumula a confiança que a etapa seguinte exigirá como capital inicial. E o sexto princípio cooperativista, o da intercooperação, revela que a escala não se detém no primeiro plural: também os “nós” dependem de outros “nós”, e a cooperativa isolada reproduz, no plano institucional, o mesmo erro que o indivíduo isolado comete no plano pessoal.
O CRITÉRIO QUE SEPARA COOPERAÇÃO DE CONLUIO: a coincidência entre quem decide e quem paga. Os arranjos comuns só se sustentam quando quem decide arca com as consequências. Quando o benefício se concentra nos articulados e o custo recai sobre quem não participou da deliberação, há cooperação de fato e nenhum bem comum. É o egoísmo que descobriu cooperar melhor em grupo. Os testes úteis são sempre os mesmos: transparência sobre quem ganha, prestação de contas a quem paga e sanção efetiva para quem descumpre o pactuado.
O PREÇO DA TESE: depender dos outros significa depender daquilo que pode falhar, trair e desistir. A dicotomia estoica cura a ansiedade cortando o vínculo com o incerto, e sua eficácia terapêutica decorre precisamente da amputação que realiza. A terceira coluna reabre exatamente esse vínculo, e o artigo reconhece com honestidade que quem a adota não herda a terapia do estoicismo, precisa de outra.
Essa outra terapia tem nomes conhecidos, e nenhum deles é propriamente filosófico: confiança, pacto, regra pactuada, monitoramento mútuo, sanção graduada, perdão.
O QUE SE CONCLUI: o reconhecimento da terceira coluna não amplia o campo da impotência, reduz o campo da resignação. Boa parte do que havia sido despachado para o inevitável retorna ao domínio da ação, e a reclassificação indica inclusive o caminho, que é a construção do sujeito plural capaz de agir. Ao lado do que depende de mim e do que não depende de mim, existe aquilo que só existe entre nós. Não é meu. Não é alheio. É nosso. E a tarefa de uma filosofia prática que queira ser útil ao seu tempo consiste menos em ensinar a distinguir as duas primeiras colunas, o que a Antiguidade já fez com maestria, do que em ensinar a construir e a preservar a terceira.
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