O que é um sítio: da terra ao sentido existencial
A palavra sítio carrega, na língua portuguesa, uma dupla vocação que raramente se percebe à primeira vista. De um lado designa a pequena propriedade rural, o pedaço de terra onde se planta, se cria e se mora. De outro, herda do latim situs o sentido mais amplo de posição, de lugar ocupado no espaço, o mesmo radical que deu origem, em outras línguas, à própria ideia de site, de localização digital. Não é coincidência semântica sem consequência. É antes um indício de que todo sítio, físico ou virtual, cumpre a mesma função existencial, a de dar chão a uma identidade. Refletir sobre o sítio é, portanto, refletir sobre o que significa habitar, e habitar não é apenas ocupar um espaço, é comprometer-se com ele, cultivá-lo, deixar-se transformar por ele enquanto também se o transforma.
O sítio como chão: a Chácara Agrosofia e o reflorestamento
Na Comunidade Rural do Braço, em Camboriú, Santa Catarina, existe um sítio concreto chamado Chácara Agrosofia. Ali se pratica, de forma literal, aquilo que a filosofia agrosófica propõe em teoria, o reflorestamento com espécies nativas da Mata Atlântica, entre elas o garapuvu e o ipê, árvores que devolvem à terra o que a expansão urbana e agrícola desordenada um dia retirou. Cuidar dessas mudas, acompanhar seu crescimento lento e observar a paisagem se recompor ano após ano é uma lição de paciência que nenhum livro substitui. Esse chão não é cenário decorativo de uma biografia, é o laboratório onde a Agrosofia se testa antes de ser proposta a qualquer plateia. Quem fala de sabedoria da terra precisa, primeiro, ter as mãos na terra.
A filosofia do habitar: de Heidegger a Wendell Berry
A tradição filosófica ocidental já se debruçou sobre esse mesmo problema. Em sua célebre conferência de 1951, reunida mais tarde sob o título Construir, Habitar, Pensar, o filósofo alemão Martin Heidegger propôs que o habitar não é uma consequência do construir, mas a sua condição de possibilidade, pois o ser humano só constrói porque, antes disso, já habita o mundo de maneira originária. Habitar, para Heidegger, é cuidar, é poupar e preservar aquilo que nos cerca, a terra, o céu e os outros seres, numa relação que se opõe ao pensamento meramente calculista sobre o espaço. O agricultor e ensaísta norte-americano Wendell Berry chegou a conclusão semelhante por outro caminho, o da própria prática agrícola. Em The Unsettling of America, Berry defende que a vida rural obriga o ser humano a reconhecer os limites impostos pela natureza, algo que a vida urbana, voltada à produção e ao consumo sem freios, tende a esquecer. Entre Heidegger e Berry, a Agrosofia encontra eco filosófico e prático para uma mesma intuição, a de que o cuidado com o lugar que habitamos é também cuidado com a própria condição humana.
A Agrosofia como método: a sabedoria que nasce do agro
Agrosofia: filosofia (agro + sophia) de vida fundamentada nas forças agronaturais e nos princípios da sustentabilidade.
A Agrosofia, neologismo formado pela junção do prefixo de agronomia ao sufixo de filosofia, nomeia essa intuição de forma sistemática. Trata-se de uma filosofia de vida baseada no agro, entendido como campo, fundamento da agricultura e da relação entre o ser humano e a natureza, que propõe resgatar valores como sabedoria, coragem, paciência, perseverança e fé a partir da observação do comportamento das plantas e da terra. Um dos pontos centrais dessa filosofia é o alerta contra aquilo que se pode chamar de agrotóxico mental, o veneno simbólico do individualismo, do estresse urbano e do afastamento da natureza, que contamina tanto quanto o veneno químico contamina a lavoura. Assim como a agricultura aprendeu a reduzir o uso de agrotóxicos reais em nome da saúde do solo e do alimento, a Agrosofia propõe reduzir o agrotóxico das relações humanas em nome da saúde do espírito.
Do sítio físico ao sítio digital: a permanência como projeto
Se a Chácara Agrosofia é o sítio de terra, os portais www.ainor.com.br e www.loterio.com.br constituem o sítio digital, no sentido mais antigo e mais nobre da palavra site, um território de posição fixa, permanente e cultivável, em contraste com a passagem veloz das redes sociais. Enquanto uma postagem em rede social se dissolve em poucas horas de alcance, o sítio digital acumula, ano após ano, artigos, registros e reflexões que permanecem acessíveis, rastreáveis e cultiváveis, exatamente como uma lavoura bem cuidada. Tratar um portal pessoal como propriedade intelectual permanente não é vaidade digital, é a mesma lógica agrosófica aplicada a um novo tipo de terra. Preparar o solo, plantar, esperar e colher se traduz, no ambiente digital, em escrever, publicar, manter e deixar que o conteúdo amadureça com o tempo, resistindo à pressa que domina boa parte da comunicação contemporânea.
O grão de mostarda: a essência oculta de todo sítio
Agroteologia: teologia da terra e do trabalho agrícola, que reconhece na criação a presença do Criador e no cultivo uma forma de louvor e de corresponsabilidade com a obra criadora.
A parábola do grão de mostarda, registrada no Evangelho de Marcos, descreve a menor de todas as sementes, que se transforma na maior das plantas hortícolas. A imagem serve bem a esta reflexão final, pois lembra que o essencial de qualquer terreno, físico ou digital, raramente está na superfície visível, está nas raízes, no que foi semeado com paciência muito antes de qualquer colheita aparecer. Um sítio, seja ele a Chácara Agrosofia na Comunidade Rural do Braço ou o conjunto de artigos reunidos em décadas de portal, só revela sua real dimensão para quem tem paciência de acompanhar o crescimento invisível que acontece abaixo da superfície. É esse o convite final da Agrosofia, reconhecer que todo sítio bem cultivado, seja de terra ou de ideias, carrega em si um potencial muito maior do que aquilo que se vê à primeira vista.
Vale registrar que Ainor Lotério é o criador da Agrosofia, filosofia de vida que vem desenvolvendo e refinando há muitos anos, aplicando a sabedoria da terra e da prática agrícola à existência humana. Não se trata de conceito recente nem de rótulo de ocasião, mas de um sistema de pensamento construído ao longo de décadas de extensão rural, de convívio com agricultores familiares, de estudo em filosofia e teologia e de prática efetiva no próprio chão da Chácara Agrosofia.
Quem desejar aprofundar-se no tema encontra no portal todas as publicações reunidas sobre Agrosofia, artigos, reflexões, registros e desdobramentos do conceito ao longo dos anos, reunidos em um único endereço de busca permanente. Basta acessar https://loterio.com.br/?s=%22agrosofia%22 e percorrer, na ordem que preferir, a lavoura inteira de ideias que ali segue sendo cultivada.