O TEMPO DE OBSERVAR - É CHEGADO O TEMPOEM QUE NADA PRECISA COBRAR

Esse momento chega por maturação, pois demonstra a força da vida contemplativa: gratuidade, paternidade espiritual e a sabedoria de fazer menos para ver mais

A Anotação que Revela a Maturidade

É CHEGADO O TEMPO EM QUE NADA PRECISA COBRAR

Há anotações que valem mais do que tratados. Em agosto de 2026, Ainor Francisco Lotério escreveu para si mesmo:

É chegado um tempo em que nada precisa cobrar, nada precisa pedir, nem muito precisa fazer — tudo precisa observar. Falar muito dos filhos para Deus, e menos de Deus para os filhos, porque Deus é conhecido de todos. Amar a esposa. Recolher-se, fazer o trabalho como sempre fez. Ir aprendendo, ir vivendo.

Dessa anotação nasceu o artigo, e é dela que ele extrai uma tese inteira sobre a maturidade.

A Vida Contemplativa Não é Aposentadoria

O texto desfaz logo no início o mal-entendido mais comum: a passagem da vida ativa para a vida contemplativa costuma ser confundida com desânimo ou fim de percurso, e não é nada disso. A vida contemplativa não é ausência de obra — é mudança do lugar de onde se olha a obra. Quem observa não está fora do campo: está no ponto mais alto do campo, de onde se vê a lavoura inteira, a chuva que vem e o filho que já sabe conduzir sozinho o trator. O momento não chega por decisão, chega por maturação, como a fruta que se solta do galho sem que ninguém a colha.

A Inversão da Paternidade

Durante décadas o pai fala de Deus aos filhos: ensina, corrige, insiste, adverte. É o tempo do plantio, e no plantio a mão precisa tocar a terra. Mas vem o tempo em que ele passa a falar dos filhos a Deus — e essa mudança de destinatário é uma das mais altas expressões de confiança que um ser humano pode alcançar. É a Pedagogia da Ausência aplicada ao coração: o mesmo princípio que faz um pai recuar da empresa para que os filhos assumam a gestão faz o pai recuar do púlpito doméstico para que assumam a própria fé. O recuo cria espaço, e o espaço, não a insistência, é o que permite ao outro tornar-se sujeito.

Da Gratidão à Gratuidade

Aqui está talvez a distinção mais fina do artigo. A gratidão comum é resposta: recebi algo e devolvo reconhecimento. É boa, é justa, mas ainda é contábil, ainda pertence à lógica da troca. A gratidão madura é outra coisa — é a gratuidade, o regime em que já não se agradece por isto ou por aquilo, porque tudo já é dado. Não se cobra porque nada falta; não se pede porque tudo já foi recebido antes do pedido.

O homem grato não é o que retribui, mas o que permanece.

Deixa de ser credor da vida e volta a ser hóspede dela.

Três Companhias de Leitura

O autor não caminha sozinho. Ele convoca:

  • Romano Guardini, para quem cada idade tem valor próprio e tarefa própria, sendo a da última a sabedoria — a capacidade de ver o todo.
  • Josef Pieper, que mostra a contemplação não como oposto do trabalho, mas como seu fundamento, e adverte que uma cultura que só sabe produzir perde a capacidade de celebrar.
  • Henri Nouwen, que descreve o itinerário de quem deixa de ser o filho que parte e o filho que reclama para tornar-se o pai que espera, numa vocação à paternidade espiritual que é a mais difícil e a mais tardia das conversões.

O Garapuvu e a Sombra

A imagem que fecha o raciocínio vem do chão, como sempre nele. A árvore adulta não gasta mais energia em crescer para os lados: gasta em produzir fruto e em fazer sombra. O garapuvu que se ergue acima da mata não compete com as outras árvores — abriga as que estão embaixo. Nenhuma delas cresceria sem aquela sombra, e a árvore não precisa de nenhuma delas para justificar sua altura. Assim é o homem recolhido: presente sem pressão, útil sem alarde. Recolher-se não é sair de cena, é diminuir o volume para aumentar a densidade.

O Gerúndio Final

Vou aprendendo, vou vivendo.

Não há aqui nenhuma pretensão de ter chegado. Há gerúndio, isto é, há caminho. Quem afirma que vai aprendendo guarda a única disposição que impede a maturidade de virar arrogância: continuar aluno. E quem afirma que vai vivendo recusa transformar a própria vida em monumento.

Sobre o Autor

Ainor Francisco Lotério nasceu em 27 de janeiro de 1961, na comunidade rural de Campestre, em Vidal Ramos, Santa Catarina, filho de Érica Laurentino Lotério e de Auri Fábio Lotério, agricultor e cooperativista pioneiro.

Sua formação inclui:

  • Agrônomo, filósofo, teólogo e mestre em gestão de políticas públicas.
  • Formação em psicopedagogia, gestão de marketing e metodologia do ensino superior.

Dedicou mais de quatro décadas à extensão rural, chegando à direção estadual do serviço de assistência técnica de Santa Catarina.

Atuou como: Prefeito de Camboriú, Assessor legislativo, Consultor do setor cooperativista.

É diácono permanente desde 2003 e apresenta o programa de rádio Alegria de Viver desde 1989. Mantém o Sítio Agrosofia, na Comunidade Rural do Braço, em Camboriú, onde cultiva espécies nativas da Mata Atlântica.

É casado com Ana Maria Rebelo Lotério, pai de Ainor Manoel e Lucas Manuel, e avô de Helena, Maria e Luiza.

Este artigo não é teoria: é a idade dele falando.

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Palestras e Cursos: 
Equipe Ainor Lotério: ainorfloterio@gmail.com
WhatsApp (47) 99967-5010

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