OS FILÓSOFOS DO ESTOICISMO: Do Pórtico ao Altar

Da Stoa Antiga ao Estoicismo Contemporâneo, e a Travessia da Filosofia à Fé pela Agrosofia. “Eles buscaram o que a nós foi dado de graça.”

DO PÓRTICO AO ALTAR: VINTE E TRÊS SÉCULOS EM SETE PARÁGRAFOS

Zenão perdeu um navio carregado de púrpura no mar Egeu, chegou a Atenas sem nada, entrou numa livraria, ouviu ler um livro sobre Sócrates e nunca mais voltou ao comércio. Anos depois diria que fizera uma boa viagem justamente quando naufragara. O estoicismo não nasceu numa academia. Nasceu de uma perda, e de um homem que ficou sem carga e descobriu que ainda tinha alma.

A escola era literalmente uma varanda aberta para a rua, e esse detalhe arquitetônico é uma tese filosófica: a verdade que não serve na praça não serve. Stoá, em grego, quer dizer pórtico. Sob aquele teto se elaborou um sistema completo de mundo, e os antigos o comparavam a um pomar. A lógica é o muro que protege, a física é a terra e as árvores, a ética é o fruto. Ninguém come o muro, ninguém come a raiz, mas sem eles não há fruto nenhum. A Stoá (do grego stoa, que significa “pórtico” ou “varanda coberta”) era originalmente uma galeria de colunas, de acesso público, situada na Ágora de Atenas. Foi nesse espaço aberto que Zeno de Cítio começou a ensinar seus discípulos por volta de 300 a.C., dando origem à escola filosófica conhecida como Estoicismo.

Esse detalhe arquitetônico carrega uma tese central: uma filosofia que se propõe verdadeira e útil não deve ficar fechada em academias isoladas, mas sim estar presente na praça pública, ao alcance de todas as pessoas no cotidiano.

Um poderoso e três feridos, é assim que resumo as quatro vozes que ainda hoje se leem. Sêneca, o cortesão obrigado a morrer. Musônio, o exilado. Epicteto, o escravo coxo. Marco Aurélio, o imperador. Uma filosofia que sustenta o trono e o cativeiro com as mesmas palavras merece atenção de quem quer que esteja atravessando uma temporada difícil.

Existe uma linha invisível dividindo o mundo em duas metades, e todo o sofrimento nasce quando queremos governar a segunda. De um lado, o juízo, a decisão, o desejo, a resposta. De outro, o corpo, a doença, a reputação, a chuva que cai ou não cai sobre a lavoura. A frase de Epicteto sobre os juízos que formamos das coisas fundou, no século vinte, a terapia cognitiva de Albert Ellis e Aaron Beck, e sustentou um almirante americano por sete anos e meio de tortura no Vietnã. É o que chamo de Inteligência Orientada, que não é frieza, é pastoreio da alma.

Musônio Rufo sustentou, no ano setenta, que o trabalho da terra é a mais digna ocupação do filósofo, e eu parei diante dessa frase com espanto. Um romano do primeiro século dizendo que o filósofo deveria lavrar. Reconheci ali algo muito parecido com o que venho chamando de Agrosofia. E em Hiérocles, com seus círculos concêntricos que devem ser puxados de fora para dentro até tratar o estrangeiro como irmão, reconheci a raiz mais antiga do cooperativismo que meu pai, Auri Fábio Lotério, praticou participando e se comprometendo com a fundação de cooperativa sem nunca ter lido um grego.

Marco Aurélio escrevia para si mesmo, e não havia mais ninguém, e foi lendo isso pela enésima vez que percebi o limite exato da Stoa. O homem mais poderoso do mundo escrevia à noite num caderno destinado a nenhum leitor porque não tinha a quem se dirigir. A natureza dos estoicos é providente, é racional, é ordenadora, e não chama ninguém pelo nome. Eles subiram até a última porta e pensaram que era parede. A Stoa alcançou a resignação. Não alcançou a gratidão, porque só se agradece a Alguém.

O agricultor sabe que ele não fez a semente, e essa é a descoberta que a terra me deu antes dos livros. Ele preparou o solo, abriu a cova, regou e esperou. O que aconteceu na escuridão, entre o depositar e o brotar, não foi obra sua. Foi dom. Todo lavrador honesto, quando vê o primeiro par de folhas rompendo a crosta, sente algo que não é orgulho, é espanto. E o espanto diante do que recebemos sem merecer chama-se gratidão. E a gratidão, levada até o fim, chama-se fé. Onde a Stoa dizia viver conforme a natureza, a Agrosofia diz viver conforme a Criação. Uma palavra de diferença, um mundo de diferença.

POR QUE LER O TEXTO COMPLETO

O artigo OS FILÓSOFOS DO ESTOICISMO: DO PÓRTICO AO ALTAR está aqui, na íntegra, em PDF, e traz muito mais do que estes sete parágrafos.

Traz o levantamento completo da linhagem estoica, dos escolarcas gregos aos praticantes de hoje, com época, obras principais e contribuição de cada nome, incluindo os dissidentes, as mulheres da constância romana, os senadores mortos por não aceitarem a lisonja e os compiladores sem os quais nada teria chegado até nós.

Traz o arcabouço doutrinário inteiro, a lógica, a física e a ética, explicado sem jargão.

Traz a recepção cristã e medieval, o neoestoicismo, a herança moderna de Descartes a Kant e a redescoberta contemporânea na academia e na clínica.

Traz um capítulo de correções sobre atribuições duvidosas, porque erudição sem rigor não presta serviço a ninguém.

E traz, ao final, o ponto que me move de fato: o diálogo entre a Stoa e a Agrosofia, entre o pórtico e o altar, entre aceitar o destino e agradecer o dom.

Baixe, leia e guarde. Eles buscaram, com uma nobreza que me comove, o que a nós foi dado de graça.

Porque não plantamos para nós. Plantamos porque recebemos.

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