O SINAL SERVE QUANDO CONDUZ, E TRAI QUANDO RETÉM. A serpente de bronze foi feita por ordem de Deus e curava quem para ela olhasse, mas teve de ser destruída quando deixou de apontar e começou a reter. A natureza não é Deus, mas o manifesta. O santo não é Cristo, mas o revela. Um estudo bíblico e agrosófico sobre mediação e finalidade.
OS SANTOS NÃO SEGUIRAM SANTOS, SEGUIRAM CRISTO
A afirmação de que os santos não se notabilizaram por seguir outros santos, mas por seguir Jesus Cristo, procede e tem sustentação bíblica sólida. Ela precisa, contudo, de uma delimitação exata desde a primeira linha, sob pena de se converter no erro contrário. A tese não nega a comunhão dos santos, não dispensa a intercessão, não desautoriza a devoção e não relativiza a Tradição. Ela apenas distingue duas categorias que a devoção popular frequentemente confunde, e cuja confusão está na origem de quase todos os desvios religiosos de que a história dá notícia: a mediação e a finalidade. O que se afirma não é que os santos sejam desnecessários. É que eles não são o destino. A distinção correta é entre caminho e termo, entre via e meta, entre companhia e fim.
A GRAMÁTICA DO SEGUIMENTO
O verbo grego akolouthéo, seguir, aparece cerca de noventa vezes nos Evangelhos, e o seu complemento é sempre o mesmo. Segui-me e vos farei pescadores de homens. Segue-me, dito a Mateus no posto de cobrança. Vem e segue-me, dito ao jovem rico. E, de modo definitivo, a correção de Jesus a Pedro no epílogo joanino, quando este se preocupava com o destino do discípulo amado: que te importa? Tu, segue-me. Não existe no Novo Testamento uma única ocorrência do imperativo segui Pedro ou segui Paulo. A gramática do discipulado é cristocêntrica por construção, não por polêmica. E no uso evangélico seguir nunca significa admirar à distância. Significa caminhar atrás de alguém que anda, partilhando o mesmo pó da estrada, o mesmo cansaço e o mesmo risco.
O CRITÉRIO JÁ ESTAVA FIXADO
A tese atravessa toda a revelação. Dois episódios funcionam como demonstração pelo avesso. O primeiro é o sepultamento de Moisés, enterrado por Deus mesmo em um vale de Moab, com o texto acrescentando que até hoje ninguém conhece o seu túmulo. A maior figura da história de Israel não deixou local de peregrinação, e a omissão é pedagógica, não é acidente. O segundo é ainda mais eloquente. A serpente de bronze havia sido feita por ordem divina e curava quem para ela olhasse. Séculos depois, o rei Ezequias a destruiu, porque os israelitas passaram a queimar-lhe incenso, e o texto sagrado registra com desprezo o nome que lhe davam, Neustã, pedaço de bronze. Um sinal instituído pelo próprio Deus teve de ser quebrado quando deixou de apontar e começou a reter. O que o destrói não é a sua origem, é o uso.
A CLÁUSULA PAULINA
Paulo é o texto que aparentemente contradiz a tese, e por isso mesmo é o que a confirma. Ele escreve: sede meus imitadores, como eu o sou de Cristo. A cláusula como eu o sou de Cristo não é modéstia retórica, é condição de validade. A imitação de Paulo só é legítima na medida em que Paulo já está imitando outro. A contraprova está no início da mesma carta, quando os coríntios começaram a dizer eu sou de Paulo, eu sou de Apolo, e o Apóstolo reage com três perguntas fulminantes. E conclui: eu plantei, Apolo regou, mas Deus é quem fez crescer. Para quem vem da agronomia, esta imagem é decisiva. O agricultor prepara, semeia, aduba, irriga, capina e colhe. Não faz germinar. A germinação obedece a uma lei que ele não instituiu e não pode suspender. Toda liderança humana legítima, no campo, na cooperativa, na paróquia e na família, é serviço a um crescimento que não se fabrica. Modelo que aponta para si mesmo deixa de ser modelo cristão e passa a ser ídolo.
OS SANTOS RECUSAM O OLHAR SOBRE SI
Este é o dado hagiográfico mais constante da Escritura. Pedro levanta Cornélio que se prostrava e diz: levanta-te, eu também sou homem. Paulo e Barnabé rasgam as vestes em Listra quando a multidão os toma por deuses. O anjo do Apocalipse, por duas vezes, impede a prostração de João. O paradigma maior é João Batista, cujos próprios discípulos o deixam para seguir Jesus sem que ele os retenha, e cuja sentença é a definição exata da santidade: é necessário que ele cresça e que eu diminua. E Maria, a maior entre os santos, pronuncia no Evangelho um único imperativo dirigido a seres humanos, em Caná: fazei tudo o que ele vos disser. O único mandamento da Mãe é que se olhe para o Filho. A santidade é a arte de apontar para fora de si. Quem retém o olhar não é santo, é obstáculo.
O PRINCÍPIO AGROSÓFICO
Aqui a Agrosofia oferece a chave de leitura mais límpida de toda esta questão. A filosofia de vida que venho construindo a partir das forças agronaturais repousa sobre uma distinção elementar e inegociável: a natureza não é Deus, mas é manifestação de Deus. A semente não é o Criador. A árvore não é o Criador. O solo não é o Criador. Todos eles, porém, dizem o Criador. A Agrosofia, portanto, não é panteísmo e nunca poderia sê-lo. O panteísmo funde Deus e natureza, e ao fundi-los perde os dois, porque um Deus que é tudo já não é ninguém, e uma natureza que é Deus já não pode ser cultivada, cuidada nem reflorestada, apenas temida ou cultuada. Reconhecer a natureza como manifestação de Deus não autoriza a divinizá-la, e negar que ela seja Deus não autoriza a desprezá-la. Quem adora a criação cai na idolatria. Quem a trata como matéria bruta e disponível cai na devastação. O reflorestamento com garapuvu e ipê no Sítio Agrosofia é gesto teológico exatamente por isso: cuida-se do sinal porque se respeita Aquele que o sinal manifesta.
A ANALOGIA EXATA E A LEI DA IMAGEM
O que a natureza é diante de Deus, o santo é diante de Cristo. É manifestação, não é o manifestado. É vestígio, não é a Presença. É semente que aponta a Árvore, e não a Árvore. Do mesmo modo que o garapuvu diz o Criador sem ser o Criador, Francisco de Assis diz Cristo sem ser Cristo. O Segundo Concílio de Niceia resolveu isso com precisão quase matemática ao definir que a honra prestada à imagem passa ao protótipo. A imagem é legítima, e legítima justamente porque Deus se fez visível, mas a honra não estaciona nela, transita. O iconoclasta e o idólatra cometem o mesmo erro por caminhos opostos, pois ambos supõem que a imagem retém o que representa. Um a destrói por isso, o outro a adora por isso. A posição católica é a terceira, e é a mais difícil de sustentar, porque exige olhar através sem parar em cima.
FRANCISCO DE ASSIS, O CASO EXPERIMENTAL
Três episódios estruturam a sua conversão. O encontro com o leproso, a quem desceu do cavalo para dar o ósculo da paz. A voz do Crucifixo de São Damião. E a escuta do Evangelho do envio na Porciúncula. Nenhum deles é o encontro com um santo. Todos os três são encontros com Cristo, um no pobre, um na cruz, um na Palavra. A primeira linha da Regra não bulada não deixa margem a dúvida: seguir a doutrina e as pegadas de Nosso Senhor Jesus Cristo. Pegadas, vestigia, o mesmo vocábulo que a escolástica usava para dizer a criação como rastro do Criador. Francisco não seguiu santos. Seguiu pegadas, e as pegadas eram de Um só. O Cântico das Criaturas confirma o princípio agrosófico: ele não louva o sol, a lua, o vento e a irmã terra. Louva o Senhor por meio deles, e a preposição carrega toda a diferença teológica. E o detalhe que costuma passar despercebido confirma tudo, porque o Cântico não nasce da euforia diante de uma paisagem bonita. Nasce de um homem enfermo, quase cego, marcado pelas chagas e vivendo em tempo de guerra. Não é otimismo rural. É ato de fé de quem já não enxerga o sol e continua bendizendo Aquele que o fez.
LEGADO E VAIDADE
Legado é o que continua operando quando o nome já se apagou. Vaidade é o nome que se conserva quando a obra já não opera. Um pai que forma filhos firmes deixa legado ainda que ninguém recorde o seu rosto. Um cooperativista que fortalece a união deixa legado ainda que nenhuma placa o registre. Meu pai, agricultor e cooperativista, não me deixou uma biografia para reverenciar. Deixou-me uma prática a continuar. Isso é seguir alguém corretamente, e é também a razão pela qual o cooperativismo autêntico jamais depende de um fundador cultuado, e sim de princípios que seguem funcionando quando os fundadores já não estão.
QUEM FALA DESSE ASSUNTO
Vale registrar de onde vem esta reflexão, porque ela nasce de um cruzamento pouco comum de formações. Ainor Francisco Lotério é Diácono Permanente desde 2003, engenheiro agrônomo pela UDESC, filósofo, teólogo e Mestre em Gestão de Políticas Públicas pela UNIVALI. É o criador da Agrosofia e da Agroteologia, e é essa dupla competência que torna possível um texto como este, no qual a exegese do verbo grego akolouthéo caminha ao lado da lei biológica da germinação, e a lei da imagem definida em Niceia se ilumina pelo modo como o agricultor entende a diferença entre o sinal e aquilo que o sinal anuncia. Quem lê aqui sobre a semente que não germina por decisão do lavrador está lendo alguém que passou quatro décadas na extensão rural antes de escrever a frase. Autor de A Eternidade em Nós, Paixão pelo Cooperativismo, Pais Frouxos, Filhos Sofredores; Pais Firmes, Filhos Felizes e Um Minuto de Inspiração.
LEIA O TEXTO COMPLETO
Os santos são via, companhia, intercessão, exemplo e prova histórica de que o Evangelho é praticável por gente de carne e osso. Não são termo. A natureza manifesta Deus sem ser Deus, e é por isso que merece cuidado e não adoração. A imagem remete ao protótipo sem retê-lo, e é por isso que pode ser venerada sem idolatria. O santo manifesta Cristo sem ser Cristo, e é por isso que merece veneração e não culto de latria. Em todos os casos o princípio é o mesmo, e é o princípio que sustenta toda a Agrosofia e toda a Agroteologia: o sinal serve quando conduz, e trai quando retém. Os santos não se notabilizaram por seguir outros santos, mas por seguir Jesus Cristo, e é justamente por isso que podem ser seguidos, na exata medida em que seguem. O estudo integral, com as quatorze seções, as ressalvas doutrinais e as referências conciliares e franciscanas, está disponível em https://loterio.com.br/?jfb_pdf=43923
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