PEDAGOGIA DA AUSÊNCIA: QUEM OCUPA TODO O ESPAÇO NÃO FORMA SUCESSOR, FORMA PLATEIA

Por que a retirada estratégica de quem lidera é o método mais eficaz de formar sucessores fortalecidos na família, na cooperativa e na empresa.

QUEM NÃO SAI DE CENA NÃO DEIXA HERDEIRO: DEIXA PLATEIA, GENTE QUE APRENDEU A APLAUDIR

O fundador tem setenta, o filho tem quarenta, e quem decide é o de setenta.

Há uma cena que se repete em milhares de propriedades rurais, cooperativas, empresas familiares, prefeituras e paróquias deste país. O filho executa, opina, sugere e espera. Todos afirmam que a sucessão está encaminhada. Não está. O que existe ali é delegação de tarefas com retenção de poder, e isso não forma sucessor: forma auxiliar qualificado. A conversa sobre sucessão no Brasil costuma ser conduzida como assunto jurídico ou patrimonial, e tudo isso é necessário sem ser suficiente. Documento transfere bens, não transfere capacidade de decidir. E é exatamente a capacidade de decidir que morre com o fundador quando ela nunca foi exercitada por outro. O gargalo raramente está no jovem. Está no espaço. Não existe espaço vago, e enquanto não existir espaço vago não haverá quem o ocupe.

Três palavras sustentam o método, e nenhuma é dispensável.

Pedagogia da Ausência é o método formativo que utiliza a retirada deliberada, temporária e comunicada de quem detém a autoridade como principal instrumento de amadurecimento de quem virá a sucedê-la.

Deliberada: a ausência é escolhida, não sofrida. Quem é afastado por doença, por conflito ou por falta de convite não está aplicando método algum, está apenas ausente. A diferença entre pedagogia e ferida chama-se intencionalidade.

Temporária: tem começo, meio e fim previstos. É um intervalo com data de retorno, e é justamente a existência da data que permite ao sucessor arriscar sem pânico e ao antecessor sair sem culpa.

Comunicada: ninguém aprende com uma ausência que interpreta como desprezo. O sucessor precisa saber que aquele vazio foi aberto para ele, de propósito, por confiança. Ausência não anunciada não educa, assusta.

A mãe suficientemente boa é a que começa a falhar na medida certa.

Winnicott formulou uma das ideias mais contraintuitivas da psicologia do desenvolvimento. No início a mãe se adapta quase por completo ao bebê; depois, gradualmente, passa a falhar. Atrasa um pouco. Deixa um intervalo entre o desejo e a satisfação. É dentro desse intervalo que a criança descobre que existe mundo fora dela e que ela própria é capaz de esperar, de tolerar e de agir. Dele vem a fórmula que interessa a todo pai, gestor e dirigente: desenvolve-se a capacidade de estar só na presença de alguém em quem se confia. Traduzindo para a mesa de reunião e para a mesa da cozinha, não é a ausência total que forma, é a ausência dentro de um vínculo garantido. Quem some sem avisar produz insegurança. Quem nunca sai produz dependência.

O andaime existe para ser retirado.

Vygotsky descreveu a zona de desenvolvimento proximal, a faixa entre o que a pessoa já realiza sozinha e o que só consegue com ajuda. Bruner deu a essa ajuda o nome de andaime, e aqui está o detalhe que quase todo formador esquece: andaime é, por definição, estrutura provisória. Se permanece depois da obra pronta, deixou de sustentar e passou a esconder. Pior, passou a impedir que se veja se a parede se sustenta sozinha.

A tradução agronômica: rustificação e retirada do tutor.

Quem trabalha com mudas conhece isso por outro nome. Antes de levar a muda do viveiro para o campo, o viveirista reduz progressivamente a água e retira a sombra. Faz a planta sofrer um pouco, de propósito, em ambiente controlado. Muda protegida até o último dia morre na primeira estiagem; muda rustificada pega. E há o tutor, aquela estaca amarrada ao caule. Se o tutor permanece tempo demais, o tronco não engrossa, porque nunca precisou resistir ao vento. A árvore que jamais balançou não desenvolve lenho de reação: fica alta, reta, bonita e quebradiça, e no dia em que o tutor cai, ela cai junto. Sucessor sem vento é muda com tutor eterno. E o vento, na empresa e na família, chama-se decisão com consequência real.

Devolver o trabalho às pessoas.

Heifetz distingue problemas técnicos, que a autoridade resolve, de desafios adaptativos, que exigem que as próprias pessoas mudem valores, hábitos e formas de trabalhar. Nesse segundo caso, a autoridade que resolve no lugar delas não ajuda, impede a solução. O dirigente que absorve todos os problemas alivia a organização no curto prazo e a incapacita no longo. Heifetz descreve ainda a diferença entre estar no salão de baile e subir à sacada: só de cima se enxerga o padrão da dança. Quem está sempre dançando nunca vê a dança. A ausência é a sacada.

O Mestre que promete partida, e o santo que não diz uma palavra.

Às vésperas da paixão, diante de discípulos assustados, Jesus não promete permanência. Promete partida: convém que Ele vá, porque se não for o Consolador não virá. A formação dos apóstolos não se completa na convivência, completa-se na ausência. Enquanto o Mestre está à mesa, eles perguntam; depois da Ascensão, eles pregam. E há a figura mais silenciosa: São José não tem, em todo o Novo Testamento, uma única palavra registrada. Sonha, obedece, protege, trabalha e desaparece da narrativa sem discurso de despedida. Ensinou tanto que não precisou explicar. Elias deixa cair o manto sobre Eliseu antes de ser arrebatado. Nenhuma sucessão bíblica acontece por acúmulo de presença. Todas acontecem por partida.

O protocolo: quatro graus, e a ordem importa.

Primeiro grau, ausência de opinião. Durante um período definido, o antecessor participa das reuniões e não emite parecer, salvo quando perguntado diretamente. É o mais difícil e o mais barato, porque não altera nada na estrutura e altera tudo na dinâmica. Quem não consegue ficar calado por trinta dias não está pronto para os graus seguintes.

Segundo grau, ausência de assinatura. Uma faixa de decisões passa a ser tomada e executada sem consulta prévia, com limite de valor e de risco combinado antes. Erros dentro dessa faixa são custo de formação e devem estar orçados como tal, exatamente como se orça calcário, adubo ou semente. Quem não reserva orçamento para o erro do sucessor está apenas fingindo que delega.

Terceiro grau, ausência física programada. De quinze a trinta dias fora, sem gestão remota, sem telefonema de controle, sem visita de inspeção disfarçada de saudade. Tudo o que quebrar nesses trinta dias revela um processo que dependia de pessoa e não de método. Isso não é o fracasso do experimento, é o produto do experimento.

Quarto grau, ausência institucional. A entrega formal do cargo, da representação e da palavra pública. Só se realiza depois dos três anteriores, e se realiza uma única vez. Não há segunda despedida com credibilidade.

O critério de passagem entre um grau e outro é uma única pergunta: o que aconteceu aqui teria acontecido do mesmo modo se eu estivesse presente? Se a resposta for não, houve aprendizado. Se for sim, a autoridade continuou operando por telefone, por hábito ou por medo.

As quatro armadilhas da ausência mal aplicada.

A ausência ressentida, que sai magoada torcendo silenciosamente para que o outro fracasse. É sabotagem com aparência de método. A ausência intermitente, que sai e volta corrigindo na volta o que foi decidido durante a saída, ensinando ao sucessor que o espaço é emprestado. A ausência sem preparo, que se retira antes de transferir informação, rede de relacionamentos e, sobretudo, critério: a ausência não substitui a formação, ela coroa a formação. E a ausência confundida com abandono afetivo: retirar-se da decisão não é retirar-se da vida do outro. Menos comando e mais convivência, menos reunião e mais mesa. O pai que sai da empresa e some da casa apenas trocou um erro por outro.

O experimento na própria casa.

Não escrevo isto de cátedra, escrevo de dentro. Apliquei o terceiro grau na condução da nossa própria atividade familiar, retirando-me da rotina por um período combinado e resistindo, com alguma dificuldade, ao impulso de telefonar. Voltei e encontrei três resultados: decisões que eu teria tomado de outro modo e que deram certo assim mesmo, o que é humilhante e libertador na mesma proporção; processos que só funcionavam porque eu os carregava na cabeça e que precisaram virar rotina escrita; e filhos que passaram a dizer nós decidimos, no lugar de o pai decidiu. No Sítio Agrosofia, na Comunidade Rural do Braço, a lição é ainda mais simples. Os garapuvus e os ipês que plantei crescem sem a minha vigilância. Não crescem apesar da minha ausência, crescem porque o plantio foi bem feito.

A última aula é uma cadeira vazia.

Toda liderança começa ocupando espaço e deveria terminar abrindo espaço. A segunda ponta é sempre mais difícil do que a primeira, porque a primeira é aplaudida e a segunda é silenciosa. A pergunta que separa um fundador de um formador não é quanto ele construiu. É quanto continua de pé no dia em que ele não aparece. Herança se conta em bens. Legado se conta em pessoas capazes de decidir sem consultar o retrato na parede.

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PALESTRAS E CURSOS, EQUIPE AINOR LOTÉRIO
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