Rochdale não inventou a cooperação. Apenas escreveu as regras de algo que a vida já praticava havia milênios.
Escrevi um artigo sobre isso e o deixo aqui, integral, em PDF, como contribuição livre a quem vive e ama o movimento cooperativista.
1. O COOPERATIVISMO COMEÇOU MUITO ANTES DO CARTÓRIO
Nasceu no instante em que dois seres humanos concordaram em vigiar o mesmo trigo. Antes da doutrina, antes do estatuto, antes da assembleia, houve o medo compartilhado da escassez e a descoberta de que juntos se perde menos. Reduzir o cooperativismo à sua certidão de nascimento é confundir o registro com a vida.
2. A AGRICULTURA FOI A PRIMEIRA COOPERATIVA DA HUMANIDADE
Não foi apenas um degrau técnico da evolução. Foi o primeiro grande ato associativo da nossa espécie. Ler as estações, preparar a terra e defender a colheita exigiu que o esforço individual se dissolvesse no planejamento coletivo. Quem plantou junto descobriu, sem saber, que o isolamento biológico é o caminho mais curto para a extinção.
3. O CÉU JÁ ENSINAVA GOVERNANÇA ANTES DE QUALQUER LEI
Uma estrela sozinha se perde na imensidão. O Cruzeiro do Sul orienta navegantes e dita o calendário do plantio porque é conjunto, é conexão, é vínculo entre pontos distintos. A primeira aula de organização coletiva que o ser humano recebeu foi olhando para cima, de graça, todas as noites.
4. DEBAIXO DA TERRA, AS ÁRVORES JÁ FAZIAM INTERCOOPERAÇÃO
As florestas conectam raízes por redes micorrízicas para partilhar água, nutrientes e alertas contra pragas. As formigas e as abelhas superam a fragilidade do indivíduo pela indestrutibilidade do coletivo. Isto é Agrosofia na sua forma mais pura: a natureza não é cenário do nosso trabalho, é professora do nosso comportamento.
5. PEDRO JÁ ERA COOPERATIVISTA ANTES DE SER APÓSTOLO
Na Galileia, ele e seus parceiros dividiam os custos dos barcos, o remendo das redes, o risco das tempestades e o resultado da pescaria. Quando Cristo o chamou, não anulou aquela dinâmica associativa, elevou-a. A bolsa comum e o cuidado com os mais vulneráveis fizeram do grupo dos doze uma verdadeira cooperativa humana.
6. SETE PRINCÍPIOS, SETE DONS, UMA MESMA SABEDORIA
No artigo eu desenvolvo a simetria entre os sete princípios da Aliança Cooperativa Internacional e os sete dons do Espírito Santo. A adesão livre e o temor de Deus. A gestão democrática e o conselho. A participação econômica e a fortaleza. A autonomia e a ciência. A educação e o entendimento. A intercooperação e a piedade. O interesse pela comunidade e a sabedoria, o mais alto de todos, que harmoniza o interesse pessoal com o bem comum.
7. A LEI PROTEGE, MAS TAMBÉM PODE SER DETURPADA
Aqui está a parte mais dura do texto e eu não fugi dela. A formalização jurídica é conquista civilizatória e blindagem para quem é pequeno. Mas quando grupos de pressão instrumentalizam a legislação para obter privilégio, fechar mercado e criar reserva para poucos, a estrutura cooperativa vira fachada. A lei existe para servir à cooperação, e não para que a cooperação seja usada como artifício de manipulação da lei.
A INTELIGÊNCIA COOPERATIVA E AS MÚLTIPLAS INTELIGÊNCIAS HUMANAS
Há uma reflexão que atravessa todo o artigo e que quero deixar em destaque.
Cooperar não é apenas um arranjo econômico. É uma forma superior de inteligência.
A cooperativa que funciona é aquela que descobriu que ninguém carrega todas as inteligências sozinho. Um associado tem a inteligência da terra, que lê o solo e o tempo. Outro tem a inteligência dos números, que enxerga custo e margem. Outro tem a inteligência das relações, que sustenta o grupo quando a assembleia esquenta. Outro tem a inteligência das mãos, que conserta o que os manuais não explicam. Outro tem a inteligência espiritual, que lembra a todos para que servem os resultados.
A inteligência cooperativa é a arte de somar essas inteligências sem anular nenhuma delas.
É por isso que a Agrosofia não separa a agronomia da filosofia, nem a técnica da espiritualidade. O que a raiz faz com a floresta é exatamente o que a boa governança faz com as pessoas: distribui o que sobra em uma para socorrer o que falta na outra, e o conjunto inteiro fica de pé quando vem a tempestade.
Quem entende isso não precisa ser convencido do cooperativismo. Já está vivendo dentro dele.
LEIA O ARTIGO COMPLETO EM PDF
Deixo o texto integral neste espaço, com o desenvolvimento de cada tópico, a fundamentação e as referências, incluindo Kropotkin, Charles Gide, a Declaração sobre a Identidade Cooperativa e a Lei 5.764 de 1971.
Baixe, leia, imprima, use nas suas formações, leve para o conselho de administração, discuta com os jovens da sua cooperativa. É a minha contribuição a quem acredita que cooperar não é estratégia de mercado, é instinto de sobrevivência elevado à condição de virtude.