SOPRO E ETERNIDADE A vaidade nas Escrituras — de Salomão a Cristo, uma leitura agrosófica sobre o que passa e o que permanece

“Vaidade de vaidades, tudo é vaidade. Que proveito tem o homem de todo o seu trabalho debaixo do sol?” (Ecl 1, 2-3)

SOPRO E ETERNIDADE: Há títulos que se explicam sozinhos e há títulos que abrem uma porta. Este abre. Sopro e eternidade são as duas medidas entre as quais toda vida humana acontece, e o artigo que trago hoje percorre esse intervalo com as Escrituras numa das mãos e a terra na outra.

A palavra que Salomão repete no Eclesiastes, traduzida entre nós por vaidade, é o hebraico hevel: sopro, vapor, fumaça que se dissipa. É a respiração breve num amanhecer frio, visível por um instante e logo desfeita no ar. Dizer que tudo é vaidade não é dizer que tudo é mau. É dizer que tudo é passageiro. E compreender essa palavra é aprender a distinguir o que é sopro do que é raiz.

Este é o terreno onde nasce aquilo que venho desenvolvendo há anos como agroteologia e agrofilosofia, dois ramos vivos da Agrosofia. A agrofilosofia pergunta o que a terra ensina sobre o pensar e o existir. A agroteologia pergunta o que a terra ensina sobre Deus e sobre a alma. O agricultor vive imerso no efêmero: a flor que abre pela manhã e murcha à tarde, a colheita farta de um ano seguida da estiagem do outro, o suor de uma safra que uma geada desfaz numa noite. E é exatamente por conviver com o que passa que ele aprende a plantar no que permanece.

Preciso dizer isto com toda a clareza. Escrever sobre fé não é dirigir a vida de ninguém. Não há aqui sectarismo, nem pretensão de doutrinar, nem julgamento sobre o caminho espiritual de quem quer que seja. Há respeito integral à diversidade religiosa e à consciência de cada pessoa. O que há é o exercício de uma liberdade que também é minha: a liberdade de expressar a própria fé e de partilhar aquilo que me sustenta. Falo do lugar de onde vivo, como diácono permanente, agrônomo, filósofo e teólogo, e ofereço, não imponho. Quem lê pode discordar, pode traduzir para a sua própria linguagem espiritual, pode simplesmente pensar junto. A palavra só cria raiz onde é recebida em liberdade.

E há uma razão profundamente humana para tratar disso. Todos desejam ser eternos. Todos querem alongar a vida. Investe-se em corpo, em aparência, em procedimento, em promessa de juventude. Mas não basta fazer plástica para morrer mais esticado. Longevidade que merece esse nome é projeto inteiro de vida: propósito definido, vínculos cuidados, saúde física e mental, trabalho com sentido, família amparada, espiritualidade viva. É o que Salomão descobriu depois de medir tudo o que estava debaixo do sol, e é o que Cristo apontou quando deslocou a vaidade das aparências para o coração, ensinando que o que se faz no oculto é o que verdadeiramente permanece.

Reconhecer que somos sopro não nos diminui. Nos liberta do peso insuportável de fingir que somos eternos por nós mesmos. A vida é breve como a bruma da manhã, e por isso mesmo cada gesto de verdade, feito no silêncio e enraizado no eterno, é a única semente que a morte não colhe.

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AINOR FRANCISCO LOTÉRIO Palestrante · Agrônomo · Filósofo · Teólogo · Diácono Permanente Criador da Agrosofia · Chácara Agrosofia, Comunidade Rural do Braço, Camboriú/SC www.ainor.com.br · www.loterio.com.br

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