SOBRA POPULAÇÃO, FALTA OPERÁRIO: A SEARA CONTINUA DOURADA, MADURA, ESPERANDO
Há uma cena que atravessa os séculos sem perder a atualidade. Um homem observa a plantação madura, dourada, pronta, e sente no peito não a alegria da fartura, mas a angústia de uma pergunta: quem colherá tudo isso? Quando Jesus contempla a messe e declara que a seara é grande, mas os operários são poucos, Ele não faz uma contabilidade de multidões. Diagnostica algo mais profundo e mais incômodo. O problema nunca foi o número de gente disponível no mundo, mas a qualidade e a disposição de quem se propõe a pegar na foice. Em termos demográficos, o mundo transborda de gente. E, no entanto, na lavoura, na escola, na repartição, na empresa, na cooperativa, na comunidade, ecoa o mesmo clamor: faltam pessoas que saibam o que estão fazendo e que tenham o coração no trabalho. Sobra presença e falta compromisso. Toda profissão é uma seara. Toda vocação é um chamado. E toda obra humana pede as mesmas três virtudes.
A excelência não é um ato, é um costume.
A competência é a primeira glória do operário. Ela não é vaidade nem exibição de diploma, é reverência à obra que se tem nas mãos. Quem domina a sua arte respeita a lavoura, porque sabe que colher sem conhecer é pisar naquilo que deveria proteger. A competência madura não se mede pelo que se acumulou na estante, mas pelo que se calejou nas mãos. Aristóteles ensinava que a virtude é hábito, e não acidente: ninguém se torna competente por um gesto isolado de brilho, mas pela repetição paciente do bem feito. O operário competente é aquele que faz bem o pequeno serviço quando ninguém o observa, porque compreendeu que a qualidade da colheita se decide muito antes da colheita.
A terra não avalia intenções declaradas: ela mede profundidade de semeadura, umidade de solo, tempo de espera e constância de trato, e devolve, com exatidão técnica e sem apelação, aquilo que recebeu.
Se a competência é a mão preparada, a disponibilidade é o coração aberto, e este é o maior gargalo do nosso tempo. Existe uma distância enorme entre estar desocupado e estar disponível. O mundo transborda de gente cheia de potencial e de técnica, mas de coração blindado pelo individualismo, pela pressa, pela indiferença que quase virou virtude. A boa vontade é a energia que converte o conhecimento em ação: sem ela, o saber apodrece dentro de quem o guarda. Quando o profeta Isaías ouve a voz que pergunta quem irá, não responde com um currículo, responde com uma frase curta e desarmada: eis-me aqui, envia-me. Não à toa, o cooperativismo nasceu de uma ação concreta antes de virar doutrina. Os Pioneiros de Rochdale não escreveram primeiro um tratado, abriram primeiro um armazém.
Em casa, ninguém pergunta o seu cargo. Perguntam se você chegou a tempo do almoço.
A terceira marca é a que dá sentido às outras duas: a intencionalidade correta. De pouco vale a mão hábil e o coração aberto se a intenção fareja projeção, status ou vantagem própria. O verdadeiro trabalhador age pelo bem da colheita e por fidelidade ao Dono da messe, não pelo aplauso, não pelo bônus que aparece no fim do mês. Kant nos advertiu que a pessoa jamais deve ser tratada como meio, sempre como fim, e aplicada à seara a lição é direta: quem trabalha usando os outros como degrau de sua própria ascensão não é operário, é oportunista. A intencionalidade correta é aquilo que separa o profissional do predador, o líder do manipulador, o servidor do aproveitador. E ela não aparece nos indicadores, aparece na consciência.
Liderança que precisa do posto para inspirar não é liderança: é organograma.
A lavoura do mundo não espera por quem apenas sabe fazer, nem por quem apenas quer fazer, nem por quem faz pelos motivos errados. Ela espera por aqueles que, sabendo fazer, querendo fazer e fazendo pelo bem da colheita, escolhem fazer com amor. Quem planta por vaidade colhe aparência. Quem planta por interesse colhe cansaço. Quem planta por amor colhe fartura, e ainda deixa semente para os que virão depois.
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Este tema também percorre o Brasil em forma de palestra, levando a certeza de que nenhuma colheita é maior do que o coração de quem a semeia. Para levar esta reflexão à sua cooperativa, empresa, escola ou comunidade, o contato está aberto.
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