DA CAMA À LAMA, DA LAMA À CAMA: A FORÇA DO CASAL ESTÁ NAQUILO QUE O MUNDO NÃO VÊ

Sobre os acordos silenciosos, a comunhão, o conflito resolvido e o retorno a dois com o coração cheio, na família que é a primeira escola e a primeira sociedade.

DA CAMA À LAMA, DA LAMA À CAMA: A FORÇA DO CASAL ESTÁ NAQUILO QUE O MUNDO NÃO VÊ

Aviso aos navegantes: este texto tem barro.

Se você procura um artigo sobre casamento cheio de pétalas, taças de espumante e casais caminhando na praia ao pôr do sol, feche esta página com carinho e procure outra. Aqui tem lama. Tem discussão às onze da noite sobre quem esqueceu de pagar a conta de luz. Tem cano estourado, tem filho com febre às três da manhã, tem mês em que a conta não fecha. E é exatamente por isso que este texto talvez sirva para alguma coisa.

A vitrine é linda. Pena que ninguém mora nela.

Vivemos o tempo da exposição. Casal fotografa jantar, aniversário, viagem, gesto bonito, e entrega ao mundo uma versão editada da própria vida. Não há mal nenhum em celebrar em público aquilo que é bom. O erro está em confundir a vitrine com a raiz. E vitrine, convenhamos, é aquele lugar onde tudo é lindo, tudo é caro e ninguém dorme.

A força de um casal jamais esteve naquilo que o mundo vê. Está exatamente naquilo que o mundo nunca verá: o combinado feito na cozinha sobre quem levanta de madrugada. A decisão de não repetir diante de terceiros aquilo que foi dito na intimidade. O pacto de não usar contra o outro, num momento de raiva, a fragilidade que ele confiou num momento de amor. Esses acordos não têm testemunha, não rendem curtida e não aparecem em fotografia alguma. E são eles, não a foto, que seguram a casa em pé.

Da cama à lama: o afeto não é enfeite, é combustível.

Faço questão da rusticidade da imagem, e peço desculpas a quem esperava algo mais elegante. A intimidade, o encontro, o afeto e o descanso não existem para si mesmos. Eles abastecem os dois para o barro do dia seguinte: o trabalho duro, a doença, o filho que preocupa, a lavoura que se perdeu, o emprego que acabou.

Quem só sabe estar bem na cama e não sabe estar junto na lama ainda não constituiu um casal. Constituiu um namoro prolongado, com aliança, certidão e financiamento imobiliário, mas ainda namoro.

Da lama à cama: cuidado para não virar sócio do próprio casamento.

E o barro do dia precisa encontrar, no fim, o lugar do reencontro. Quem chega da lama e não sabe voltar para a comunhão, para o gesto, para a palavra macia e para o corpo do outro, endurece. Vira sócio. Vira colega de moradia. Vira administrador de patrimônio comum, dois gerentes eficientíssimos de uma empresa chamada casa, com reunião de diretoria no sofá e prestação de contas no grupo do WhatsApp.

Só que casamento não é sociedade comercial. É comunhão de vida. O casal maduro percorre esses dois caminhos todos os dias, sem drama e sem espanto, porque descobriu que o amor não é só o momento bonito nem só o esforço penoso: é o vaivém entre os dois, feito com fidelidade.

Casal que nunca briga: ou é santo, ou é surdo, ou já desistiu.

Existe uma ilusão perigosa de que casal bom é casal que não briga. Não é verdade. Casal que não briga, muitas vezes, é casal que já desistiu de conversar, que aprendeu a engolir e a acumular, e que um dia explode ou adoece.

A força não está na ausência do conflito, está no conflito resolvido. Duas pessoas inteiras, com histórias, famílias de origem e temperamentos diferentes, vão divergir. O que define o casamento não é a divergência: é o método de atravessar a divergência.

E o método tem nome: diálogo estabelecido. Significa que existe um lugar, um tempo e um modo de conversar combinados antes da crise, e não improvisados no meio dela. Improvisar diálogo durante a briga é o mesmo que aprender a nadar durante o naufrágio.

Valem inteiros aqui os quatro verbos do diálogo cooperativo: escutar, perguntar, refletir e responder. Quem responde antes de escutar não discute, apenas revida. E cada discussão vencida no grito é uma discussão perdida na relação.

O cônjuge tem o mapa completo das minas terrestres.

Vale ainda a regra da palavra: sou senhor do que calo e escravo do que falo. No casamento essa lei é mais severa do que em qualquer outro vínculo, porque ninguém no mundo conhece tão bem o ponto exato onde a palavra fere. O cônjuge sabe, de cor, onde estão enterradas todas as minas. Quem usa esse mapa como arma destrói em um minuto o que levou anos para construir.

Ninho vazio? Recuso o nome. É ninho cumprido.

Toda família começa com dois. Não começa com filhos: começa com um homem e uma mulher que decidem construir. Depois vêm os filhos, e o casal quase desaparece dentro da paternidade e da maternidade. É natural e é bom. Durante duas ou três décadas os dois se tornam pai e mãe em tempo integral, sem férias, sem hora extra e sem plano de carreira. E um dia os filhos partem.

O mundo chamou isso de síndrome do ninho vazio e tratou como perda. Eu me recuso a aceitar esse nome. Quem construiu bem não fica com o ninho vazio, fica com o ninho cumprido. Os filhos não foram embora: foram lançados, que é coisa muito diferente. O ninho não esvaziou, ele funcionou. Ninho que não solta o filho não é ninho, é gaiola.

Trinta anos falando dos filhos, e depois não sobra assunto.

O que resta ao casal não é vazio: é coração cheio, mente cheia e gratidão. E resta uma segunda oportunidade rara: voltar a ser dois, com a maturidade que os vinte anos não tinham, com o tempo que a criação dos filhos não permitia, com a serenidade de quem já provou a lama e sabe o valor da cama.

Muitos casamentos não sobrevivem a esse retorno, e a razão é quase engraçada, se não fosse triste: durante trinta anos os dois só conversaram sobre os filhos. Quando os filhos saem, não sobra assunto, porque não sobrou casal. Restam dois estranhos educadíssimos dividindo o controle remoto.

Por isso insisto: cuidar do casal durante a fase dos filhos não é egoísmo, é previdência.

O currículo real é o que os filhos veem entre os pais.

A família é a primeira e mais fundamental instituição humana e social de que se tem registro: ninho acolhedor e nó integrador da sociedade, espaço sagrado de afetividade, inteligência solidária e promoção humana. Nela a criança aprende a falar, a partilhar, o limite, o perdão, a esperar a vez e que existe alguém além dela. Tudo o que depois chamamos de cidadania, cooperativismo, ética pública e convivência democrática foi ensaiado primeiro na mesa de jantar de uma casa qualquer.

Escola nenhuma, empresa nenhuma, igreja nenhuma e governo nenhum substituem o que se aprende vendo o pai e a mãe resolverem um conflito com respeito. Aquilo que os filhos veem entre os pais é o currículo real. O resto é complemento.

E a conclusão se fecha sobre si mesma: se a família é a primeira escola da sociedade, então o casal é a primeira escola da família.

Aliança plena: ninguém se casa para ser completado.

Sustento como tríade fundante da vida o Criador, o próprio eu e a pessoa com quem se convive. É o que chamo de aliança plena, e no casamento essa tríade se vê inteira: Deus, que funda; cada um dos dois, que precisa estar de bem consigo para poder se doar; e o vínculo, que é a obra comum.

Buber ensinou que a pessoa só se torna plenamente eu diante de um tu. Ninguém se casa para ser completado. Cada um se casa já inteiro, para construir com outro inteiro uma terceira coisa que nenhum dos dois faria sozinho. Metade com metade não dá um casal: dá dois pela metade.

É isto, no fim, que o mundo não vê e nunca fotografará: o acordo silencioso, o conflito atravessado com respeito, a lama enfrentada lado a lado, a gratidão de quem se doou, e a casa que continua de pé porque dois decidiram, todos os dias, continuar decidindo.

Leia o artigo completo em PDF: https://loterio.com.br/?jfb_pdf=43944

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O livro que continua esta conversa

Se o casal é a primeira escola da família, meu livro PAIS FROUXOS, FILHOS SOFREDORES; PAIS FIRMES, FILHOS FELIZES trata da aula seguinte: a firmeza formadora dos pais. O título é deliberadamente incômodo, e assumo a responsabilidade por ele. Não é manual de disciplina militar nem apologia do grito, é o oposto. É a defesa de que amar sem firmeza não é amor, é comodismo com boas intenções; e de que o filho a quem nunca se disse não passa a vida procurando alguém que lhe diga. Frouxidão parece bondade no curto prazo e cobra a fatura vinte anos depois, com juros.

Do mesmo autor: Paixão pelo Cooperativismo, A Eternidade em Nós e Um Minuto de Inspiração.

Leia também nos portais, eixo Família, casal e vida a dois

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A FAMÍLIA É O MAIOR PATRIMÔNIO DA VIDA, a família como primeira e mais fundamental instituição humana e social. ■ E A FAMÍLIA, COMO VAI?, reflexão em vídeo. ■ A ARTE DO DIÁLOGO COOPERATIVO, escutar, perguntar, refletir e responder. ■ SOU SENHOR DO QUE CALO E ESCRAVO DO QUE FALO, a palavra como semeadura, o silêncio como senhorio. ■ O TEMPO DE OBSERVAR, a maturidade, a gratuidade e o ninho cumprido. ■ PERDÃO E RECONCILIAÇÃO NO LAR, palestra da Semana da Família.

E ainda os eixos Agrosofia, Cooperativismo, Motivação, Comunicação e Longevidade, além da série Agroteologia. Entre, leia, baixe, compartilhe. É de graça e é para ser usado.

Sobre o autor

Ainor Francisco Lotério é engenheiro agrônomo, filósofo, teólogo e mestre em gestão de políticas públicas. Diácono Permanente ordenado em 2022, é o criador da Agrosofia, filosofia e mística de vida fundamentadas nas forças agronaturais e nos princípios da sustentabilidade. Escreve sobre a família a partir de dentro, e não de fora: viveu e vive todas as fases do ciclo familiar, de filho a pai e de pai a avô. Radialista desde 1989, apresenta o programa Alegria de Viver. Autor de Paixão pelo Cooperativismo, Pais Frouxos, Filhos Sofredores; Pais Firmes, Filhos Felizes, A Eternidade em Nós e Um Minuto de Inspiração. Mantém o Sítio Agrosofia, na Comunidade Rural do Braço, em Camboriú.

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