Antes de existir altar, houve enxada. Antes de existir liturgia, houve semeadura. É desse reconhecimento que parte o novo artigo de Ainor Francisco Lotério, que recupera uma frase do segundo capítulo do Gênesis lida depressa demais pela humanidade: Deus colocou o homem no jardim para cultivá-lo e guardá-lo. Não para explorá-lo, não para adorá-lo. Duas palavras que, no hebraico, descrevem também o serviço litúrgico e a guarda da Aliança, e que fazem do primeiro sacerdote da história um homem de mãos sujas de terra.
O texto mostra que a prova está diante de nós todos os domingos e quase ninguém repara: sobre o altar não se ergue ouro nem mármore, ergue-se trigo moído e uva pisada, declarados em voz alta como fruto da terra e do trabalho humano. A Igreja colocou a agricultura literalmente no centro do seu maior mistério. Cristo não escolheu metáfora urbana: escolheu o grão que morre para dar fruto, a videira e os ramos, o semeador que sai a semear, a colheita que exige operários. Quem nunca plantou entende o Evangelho por tradução; quem plantou, entende por experiência.
O artigo percorre ainda a lei mais radical da Escritura, quase esquecida, o descanso da terra a cada sete anos, o ano sabático e o Jubileu, porque a terra não pertence a quem a trabalha, e reencontra em Laudato Si’ e em Laudate Deum a confirmação de que o grito da terra e o grito dos pobres são o mesmo grito. Resgata também uma tradição robusta que poucos conhecem: Monsenhor Luigi Ligutti e seu lema de levar Cristo ao campo e o campo a Cristo, o Manifesto sobre a Vida Rural de 1939 com sua sentença exata de que a erosão humana caminha junto com a erosão do solo, e o documento A Vocação do Líder Agrícola, de 2016, para o qual a sabedoria do Criador é a norma do agricultor.
Há, no coração do texto, a distinção que talvez seja a contribuição mais original do autor: a Agrosofia é o quanto a terra ensina; a Agroteologia é Quem ensina através dela. Uma pergunta pelo sentido, a outra pelo Autor. E há a advertência que fecha o raciocínio: teologia que não desce ao chão é literatura. Por isso o artigo termina na segunda-feira de manhã, na relação concreta com o tempo, com a propriedade e com o próprio trabalho, onde a sucessão familiar deixa de ser partilha de patrimônio e se torna transmissão de responsabilidade, e onde plantar uma árvore cuja sombra outro vai usar recebe seu nome teológico preciso: esperança.
Essa preocupação não é acadêmica nem recente. Ainor Francisco Lotério é filho de agricultores do Alto Vale do Itajaí e passou mais de quatro décadas na extensão rural pela Acaresc, Emater-SC e Epagri, onde chegou à diretoria estadual. Diácono Permanente da Igreja Católica, é Engenheiro Agrônomo, Bacharel em Filosofia e em Teologia e Mestre em Gestão de Políticas Públicas. Criador da Agrosofia e da Agroteologia, mantém o Sítio Agrosofia, na Comunidade Rural do Braço, em Camboriú/SC, como laboratório vivo dessas duas linhas de pensamento. Sua atuação teológica é marcadamente interconfessional: enraizado na tradição católica, dedica-se há décadas ao diálogo com as demais confissões cristãs e com a diversidade religiosa brasileira, convencido de que a terra, o trabalho e a gratidão são território comum antes de serem território de disputa.
Não é modismo verde nem sermão rural: é a fé que reconhece no cultivo da terra a mais antiga das escolas de louvor, de gratidão e de corresponsabilidade humana. E, ao final da leitura, baixe também o PDF, disponibilizado gratuitamente, com o texto integral e uma bibliografia comentada que reúne o magistério da Igreja, o agrarianismo católico, a teologia bíblica da terra e os clássicos da filosofia agrícola, de Hesíodo e Virgílio a Wendell Berry e Norman Wirzba. É material de estudo, de formação e de pregação, e está ali para ser usado.
No portal você encontra muito mais temas relacionados: a série completa de Agroteologia, os textos sobre Agrosofia, cooperativismo, motivação, comunicação, longevidade, família e sucessão.
PALESTRAS E CURSOS – Equipe Ainor Lotério: ainorloterio@gmail.com ; WhatsApp (47) 99967-5010