O QUE MUDA COM A IDADE NÃO É O AFETO DE DEUS, É A QUEDA DO QUE NOS DISTRAÍA DELE

Reflexão sobre longevidade, desapego funcional e a sétima direção

A ilusão de que Deus nos ama por etapas.

Há uma ilusão persistente na vida religiosa: a de que Deus nos ama mais quando somos úteis e menos quando adoecemos, e que a velhice seria uma espécie de rebaixamento afetivo, um amor concedido por misericórdia àquilo que já não rende. Essa ilusão nasce de um equívoco de perspectiva. Projetamos sobre Deus a lógica do mundo, e no mundo o afeto é sempre contrapartida: recebemos atenção enquanto entregamos resultado, somos procurados enquanto respondemos, somos lembrados enquanto ocupamos. Quando a entrega diminui, a procura diminui junto, e o coração conclui apressadamente que também Deus está se retirando. Não está. O que se retira é a multidão que se aproximava do nosso cargo, e que nunca esteve interessada em nós.

Deus não fala mais alto na velhice. Nós é que ficamos com menos coisas gritando por cima da sua voz.

O afeto de Deus não é grandeza variável. Não cresce quando somos jovens e vigorosos nem decresce quando o corpo se recolhe. Antes de qualquer obra nossa já havia amor, e é esse mesmo amor que sustenta o instante em que nada mais podemos fazer. O que varia é a nossa capacidade de percebê-lo, e essa capacidade é inversamente proporcional ao volume de ruído que nos cerca.

Caem as folhas, aparece o rio.

Quem trabalhou a terra conhece esse fenômeno pela via da paisagem. No verão, a mata fechada esconde a linha do horizonte. Há folha demais, verde demais, exuberância demais, e não se enxerga o vale. É preciso que venha o inverno, que a folhagem caia, que a árvore fique aparentemente pobre, e então, de repente, aparece o rio que sempre esteve ali, correndo no fundo do terreno. A árvore não perdeu o rio no verão, perdeu apenas a visão dele. E o rio nunca deixou de correr. A queda das folhas não é empobrecimento, é abertura do campo visual. Assim é a idade: vão caindo as funções, os títulos, as convocações, os telefonemas, as presenças protocolares, e aquilo que parecia perda revela-se desobstrução.

Enquanto se trabalha para o Senhor, adia-se o encontro desarmado com o Senhor.

Durante décadas cremos em Deus enquanto fazíamos coisas para Deus, e nunca soubemos ao certo onde terminava a fé e onde começava o ofício. A oração vinha misturada com a preparação da homilia, a escuta de Deus vinha misturada com a escuta das demandas, e o serviço, que é nobre, funcionava também como esconderijo confortável. Vem então o tempo em que já não há o que preparar, e resta o essencial, que é também o mais temido: estar diante de Deus sem currículo. Por isso a velhice não é o crepúsculo da fé, mas frequentemente o seu primeiro amanhecer verdadeiro.

A desobstrução dói, e seria desonesto espiritualizar isso depressa demais.

As folhas não caem sem que a árvore sinta o vento. Perder relevância é uma forma de luto, e o que primeiro precisa ser chorado deve ser chorado. Mas há diferença decisiva entre o luto que fecha e o luto que abre. Quem interpreta a perda de função como perda de valor adoece de amargura e passa os últimos anos cobrando do mundo uma dívida que o mundo não reconhece. Quem interpreta a mesma perda como queda de folhagem descobre que ganhou horizonte. Os fatos são idênticos, a leitura é oposta, e o destino de uma vida inteira se decide nessa leitura.

As sete direções, e a que quase ninguém exercita.

Costumamos dizer que a vida se orienta por seis direções, e todas elas são relacionais: supõem um interlocutor, um cargo, uma expectativa. À direita, os que caminham ao nosso lado e esperam resposta imediata. À esquerda, os que ficaram para trás na fila da vida e precisam de amparo. Para o alto, a transcendência buscada como socorro, lembrando que a oração feita apenas na urgência ainda é uma forma de negócio. Para baixo, a terra, a origem e a finitude, que devolvem proporção a todas as nossas importâncias. Para a frente, o projeto e a meta, a mais elogiada de todas e também a mais capaz de nos manter permanentemente adiados. Para trás, a memória, que bem olhada gera gratidão e mal olhada gera remorso.

Existe, porém, uma sétima direção: para dentro. É o olhar para a própria psique, o próprio coração e a vida como um todo. Não se visita a interioridade nas horas vagas. Ela se habita, e por isso exige a vacância inteira, o silêncio prolongado e a coragem de encontrar quem somos quando não somos mais função.

A velhice como prova experimental do Evangelho.

A vida ativa nos ensina a existir por mérito: valemos o que produzimos, somos amados na medida em que servimos. Essa pedagogia é útil e é falsa. Útil, porque organiza a existência e disciplina o caráter. Falsa, porque não é assim que Deus ama. O amor de Deus é anterior à obra e sobrevive a ela, e enquanto houver obra jamais teremos certeza disso, pois sempre restará a suspeita de que somos queridos pelo que entregamos. Só quando não há mais nada a entregar é que a gratuidade fica demonstrada.

Duas contabilidades em curso, e elas nunca coincidiram.

Numa, somos ativos que se depreciam. Noutra, somos filhos, e filho não se deprecia. A idade avançada tem esta função quase sacramental: separar as duas contabilidades, que a vida ativa mantinha convenientemente confundidas, e mostrar qual delas era a verdadeira desde o princípio. O idoso que compreende isso deixa de administrar a própria decadência e passa a habitar a própria transparência. Reencontra o gosto das coisas pequenas que a pressa havia confiscado: a luz da manhã, o nome dos netos, o silêncio depois da chuva, a memória dos pais, a serenidade de um dia sem pauta. E percebe, com certo espanto, que essas coisas não são consolações menores oferecidas a quem já não pode mais o que podia. São a realidade, finalmente vista sem interferência.

As mãos vazias eram o que Deus esperava.

No fim, o que se chama envelhecer é um processo de subtração que revela em vez de reduzir. Caem as folhas, aparece o rio. Cessam as vozes, ouve-se a Voz. Diminuem as direções externas, abre-se a direção interior. E aquele que temia chegar diante de Deus de mãos vazias descobre que as mãos vazias eram precisamente a única coisa que Deus, desde sempre, esperava para poder enchê-las.

Leia o artigo completo em PDF

O artigo O QUE MUDA COM A IDADE NÃO É O AFETO DE DEUS, É A QUEDA DO QUE NOS DISTRAÍA DELE: REFLEXÃO SOBRE LONGEVIDADE, DESAPEGO FUNCIONAL E A SÉTIMA DIREÇÃO estará disponível em PDF, gratuitamente, para quem desejar baixar, imprimir, estudar e compartilhar. Traz o texto integral, o desenvolvimento completo das sete direções e a bibliografia de apoio. É leitura indicada para grupos de terceira idade, pastorais, equipes de formação, famílias e para todo aquele que está atravessando a passagem da vida ativa para a vida contemplativa.

PALESTRAS E CURSOS, EQUIPE AINOR LOTÉRIO: ainorfloterio@gmail.com · WhatsApp (47) 99967-5010

O-QUE-MUDA-COM-A-IDADE-NAO-E-O-AFETO-DE-DEUS-E-A-QUEDA-DO-QUE-NOS-DISTRAIA-DELE-.pdf Clique para abrir ou baixar o PDF

Vídeos

Galeria de Fotos