A Origem e a Relevância dos Princípios Cooperativos
Antes de qualquer legislação trabalhista, ambiental ou civil, e muito antes das cartilhas de ESG, sete princípios já respondiam às crises de governança, sustentabilidade e responsabilidade social que hoje enchem relatórios e apresentações.
Eles não nasceram em gabinete burocrático nem para atender fundo de investimento. Nasceram da necessidade real, da prática justa e da busca por equilíbrio entre desenvolvimento econômico e bem-estar humano, em Rochdale, no ano de 1844.
Se a fórmula é tão completa, por que temos tanta dificuldade em vivê-la por inteiro? É essa a pergunta do artigo que deixo aqui, e ela não comporta resposta cômoda.
1. ADESÃO VOLUNTÁRIA E LIVRE
A norma é imposta de fora para dentro, o selo é concedido de fora para dentro, e o princípio cooperativo nasce de dentro para fora.
A diferença é de origem, não de grau. Uma adesão livre já contém em si mesma o compromisso com a comunidade e com as gerações futuras. Quem vive isso cumpre por convicção, não por conformidade.
2. GESTÃO DEMOCRÁTICA PELOS MEMBROS
A participação do associado virou entrave para quem admira a agilidade centralizada das corporações.
E esse é o primeiro sintoma da doutrina desidratando. Assembleia não é formalidade a ser vencida no menor tempo possível. É o lugar onde o dono exerce a propriedade que a lei lhe garante e que a doutrina lhe ensina a usar.
3. PARTICIPAÇÃO ECONÔMICA DOS MEMBROS
Quando o foco vira acúmulo de sobras e expansão desmedida, o cooperado deixa de ser dono e vira cliente de um balcão de negócios.
E ninguém percebe no dia em que acontece. Percebe anos depois, quando a base já não reconhece a própria cooperativa e a fidelidade se transforma em cotação comparada.
4. AUTONOMIA E INDEPENDÊNCIA
Buscamos fora aquilo que sempre estivemos guardando dentro.
Importando conceitos estrangeiros e modismos de gestão que mudam a cada estação. Tenta-se enxertar sustentabilidade por meio de selo externo como se o sétimo princípio não exigisse isso desde a fundação. Autonomia se perde primeiro na dependência técnica e depois na dependência de linguagem.
5. EDUCAÇÃO, FORMAÇÃO E INFORMAÇÃO
Este é o princípio que sustenta todos os outros, e é justamente o primeiro a ser cortado quando o orçamento aperta.
Sem ele, a adesão é desinformada, a gestão democrática vira formalidade assemblear, a participação econômica se converte em simples transação e a intercooperação não passa de retórica. Formação não é custo contábil. É investimento vitalício.
6. INTERCOOPERAÇÃO
Há quem entenda de cooperativismo e guarde o conhecimento para si, e isso forma uma sociedade egoísta, com pouca ou nenhuma inteligência cooperativa.
Quem vive a essência primeiro cumpre seus deveres e depois exige seus direitos, porque sabe que reciprocidade é a palavra que define tudo. Não basta ter o rótulo de sócio se no fundo não se é cooperativista.
7. INTERESSE PELA COMUNIDADE
Não é possível manter atividades que degradam o meio ambiente e ao mesmo tempo dizer que se pensa nas futuras gerações.
Porque a consciência socioambiental já está entre os valores estruturantes do movimento. Sustentabilidade, no sentido exato da palavra, é fazer de um modo que dure para sempre. Isso estava escrito antes de existir sigla para isso.
ANTES DOS PRINCÍPIOS ESTÃO OS VALORES
Quem imagina uma casa pensa primeiro no alicerce, porque estaca fraca derruba obra pronta.
Antes dos sete princípios estão as raízes que buscam água e nutriente mesmo na estiagem econômica e social: solidariedade; liberdade; democracia; equidade; igualdade; responsabilidade; honestidade; transparência; consciência socioambiental
Os princípios podem ser revisados e atualizados, e já foram, no âmbito da Aliança Cooperativa Internacional. Os valores não mudam em função de crise nenhuma. Ao contrário, são usados justamente para vencer as crises.
E nenhum princípio se sustenta no papel. Ele só se torna verificável quando existe estrutura viva de participação, e por isso a Organização do Quadro Social é o pilar central do modelo, com: núcleos; comitês; cooperados esclarecidos; sucessão preparada.
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O texto integral, OS SETE PRINCÍPIOS SÃO SUPERIORES A QUALQUER LEGISLAÇÃO E ESG: POR QUE AINDA TEMOS TANTA DIFICULDADE EM APLICÁ-LOS, está postado aqui em PDF, com o desenvolvimento de cada ponto e as referências.
Quem quiser ir além do artigo encontra o assunto tratado com mais fôlego no meu livro PAIXÃO PELO COOPERATIVISMO, escrito a partir de décadas de sala de aula, de assembleia e de convivência com cooperados de todo o Brasil, e herdado da vivência de meu pai, Auri Fábio Lotério, cooperativista fundador da CRAVIL.
A verdadeira revolução do cooperativismo contemporâneo não está em inventar teoria nova. Está na ousadia de praticar, sem atalhos e sem concessões, a sabedoria que nos trouxe até aqui.