Este artigo trata do relato de experiências sobre a relação entre o cooperativismo e a sucessão familiar, um dos principais desafios a serem enfrentados na atualidade, está publicado no Livro
"COOPERATIVISMO E ASSOCIATIVISMO EM SANTA CATARINA NO CONTEXTO DA IMIGRAÇÃO ALEMÃ PARA O SUL DO BRASIL" (Organizadores: Elisandra Forneck, Leandro Maqyer e Gilvane Kern), título cujo objetivo foi alinhar-se com os 200 anos da colonização alemã e sua interfase com a origem do cooperativismo na região Sul brasileira.
Família e cooperativa não são entidades ambivalentes, mas organizações voluntárias, abertas ao desenvolvimento, que têm interesses comuns na mesma sociedade onde se fundam.
O conhecimento da realidade das famílias e jovens e a revisão da literatura mostram-nos que a perspectiva da sucessão interfere de maneira importante nas estruturas de produção, geração de renda e bem-estar das propriedades e cooperativas (ABRAMOVAW, 1998).
O objetivo é entender a influência e os desafios do cooperativismo na definição de novos sucessores familiares, bem como sugerir estratégias que facilitem o processo sucessório cooperativo-familiar, acolhendo os sucessores potenciais não como simples herdeiros, mas como legatários ideais dos empreendimentos e sonhos familiares cooperativistas.
No artigo completo sobre a "Relação do Cooperativismo com a Sucessão Familiar: análise, desafios, lições e estratégias preditivas", que está à
disposição em PDF a quem desejar se aprofundar, alguns tópicos chamam a atenção:
1 — MAIS DO QUE HERANÇA: A Sucessão é, mais do que herança, um legado, e uma família deve deixar à descendência uma memória planejada e transformadora da realidade da propriedade.
2 — SUCESSOR NÃO É CLIENTE, MAS TAMBÉM DONO: um sucessor nem sempre é uma pessoa com atributos iguais aos de seus pais, mas semelhantes aos deles, pois, em sendo assim, tudo continuará do mesmo modo na propriedade, o que nem sempre é conveniente. Ele não deve ser visto como um suplente comum em um cardo, mas como um dono na origem, assim como "uma cooperativa não possui associados, mas os associados possuem a cooperativa".
3 — CARTA DA JUVENTUDE VALORIZA A VIDA E EVOCA ESFORÇO FAMILIAR E COOPERATIVO: informações obtidas na Carta da Juventude Rural/Pesqueira de Santa Catarina, escrita em 1999, fruto de um grande trabalho em parceria entre o Governo do Estado/Epagri (Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina) e a Sociedade Catarinense, quando desempenhei a função de Gestor Estadual do Pró-Jovem, davam conta de que: a juventude carece de uma política pública governamental contínua e constantemente renovada, que assegure a qualificação profissional, oportunize o desenvolvimento de potencialidades humanas e das propriedades, além de valorizar aspirações e habilidades dos futuros sucessores.
4 — EXPERIÊNCIAS POSITIVAS AMPARAM A DECISÃO NO PROCESSO SUCESSÓRIO, ou seja, quanto maior a mesa da cooperação mais se comunga
do mesmo pão e, quanto mais diversificada a propriedade familiar em termos de atividades agrícolas (cultivos e criações) e não-agrícolas (oficinas, marcenarias, confecções, indústrias, etc.), maior a chance dos filhos se tornarem sucessores por atividade.
5 — SUCESSORES COM CHEIRO DE TERRA E INOVADORES: um programa de sucessores rurais familiares deve focar no desenvolvimento humano, criando assim interessados em trabalhar e viver no campo, mas, sobretudo, sucessores com cheiro de terra e gosto pela vida no campo.
6 — FILHOS DO ÊXODO RURAL: os jovens, vendo-se desprezados de certo modo por essas entidades públicas e representativas, partiram em busca de melhores condições de vida (emprego, saúde, educação, lazer, valorização pessoal), abandonando as propriedades e os municípios, tendo como destino as cidades grandes.
7 — SUGESTÃO DE UM PLANO DE SUCESSÃO FAMILIAR COM BASE NOS PRINCÍPIOS COOPERATIVISTAS: parafraseando os princípios cooperativistas, os quais devem estar no seio do lar e da propriedade, estrutura-se uma proposta de encaminhamento para a formação de sucessores no âmbito da propriedade familiar.
8 — MAIS DO QUE PAPEL, MISSÃO DO COOPERATIVISMO: As cooperativas, ao lado das famílias, estão sendo desafiadas a tomarem decisões muito fortes ao longo das diferentes fases da empresa e da vida de cada um de seus associados. Fazer a sucessão é garantir a própria evolução qualificada.
9 — CONHECIMENTO DA REALIDADE INTERNA E EXTERNA: a importância do conhecimento referente ao passado, a pisada firme no presente e um olhar agudo no cenário futuro exige que estejamos adequadamente preparados não apenas tecnicamente, mas doutrinariamente iniciados na educação cooperativista, pois a cooperação humana é alavanca de desenvolvimento local e regional, nacional e planetária.
10 — PAIS E COOPERATIVISTAS SÃO CAPAZES DE INTERVIR ESPECIFICAMENTE EM CADA SITUAÇÃO: somos seres de relação, de famílias, e não nascemos para o isolamento, mesmo que temporário. Precisamos fazer surgir um diálogo intergeracional e cooperativo dentro das propriedades rurais familiares, onde tema da sucessão possa ser encorajado e bem administrado.
11 — HÁ VAGAS PARA SUCESSORES RURAIS FAMILIARES: a carência de sucessores e a supressão da população jovem por falta de incentivo e preparo ameaça o futuro da agricultura familiar. Somado a isso, dificuldades econômicas e razões culturais incentivam esvaziamento da população jovem no meio rural.
12 — O DESAFIO DE PLANEJAR A SUCESSÃO FAMILIAR NA ATUALIDADE: um dos maiores desafios é planejar a sucessão atualmente, quando há cada vez menor número de jovens disponíveis para a sucessão familiar. Outro problema é que em muitas famílias capitalizadas não há sucessores e nas famílias mais numerosas não há terra para tanto, de modo que se possa manter a vitalidade dos negócios da propriedade.
Entrevista com AINOR LOTÉRIO

13 — APRENDENDO COM AS LIÇÕES DEIXADAS PELOS ANTEPASSADOS: o novo padrão de modernização da agricultura e do rural só se estabelece quando apreendermos as lições arduamente deixadas pelos antepassados (valorização das famílias, interesse pala comunidade, solidariedade pelos vizinhos, ajuda mútua e espírito empreendedor cooperativista) e abraçamos as necessidades tecnológicas de inovação do presente.
14 — Porque AS ENTIDADES REPRESENTATIVAS DOS AGRICULTORES TARDARAM EM REAGIR AO VAZIO DE SUCESSORES: o campo sempre anunciou o êxodo rural, que ocorreu massivamente e pouco se fez enquanto ele drenava famílias inteiras e filhos e filhas, os quais nem sempre encontraram a realização dos seus sonhos, mas o infortúnio da falta de oportunidades para todos nas cidades. Por que se demorou tanto a agir?
15 — A FAMÍLIA RURAL, OS NOVOS SUCESSORES E A COOPERATIVA: associar-se à cooperativa é formar uma potente família legalmente organizada, para vencer os embates competitivos num mundo globalizado, onde o longe de outrora é o aqui e agora. A terra da propriedade familiar não encerra a vida, mas possibilita sempre o seu recomeço; a cooperativa dá segurança e estabilidade aos negócios e geração de renda com base na sociedade de pessoas com objetivos e ideais comuns.
16 — LIDERANÇA COOPERATIVISTA COM INTELIGÊNCIA E VISÃO DE COMUNIDADE: uma instituição cooperativa que não constitui um plano de sucessão em todos os níveis está fadada a morrer pela ausência de excelência humana, a única riqueza realmente verdadeira duma associação de pessoas com objetivos comuns. É primordial para uma entidade cooperadora edificar sucessores.
17 — ESTRATÉGIAS PREDITIVAS PARA ANTECIPAR A SUCESSÃO FAMILIAR: a análise preditiva objetiva avaliar o passado e o presente para prever o futuro da sucessão. Assim, a estratégia preditiva é montada através da junção do alto volume de informação produzida (em todas as áreas diariamente no mundo) com os avanços tecnológicos. Prever ações para um futuro mais seguro é uma necessidade num mundo em constantes mudanças, e o é ainda mais necessário numa atividade desempenhado a céu aberto, como a agricultura.
18 — NECESSIDADE DE NOVAS ESTRATÉGIAS COOPERATIVAS: as cooperativas de todos os ramos (atualmente sete: agropecuário, de crédito, de transporte, de trabalho, produção e bens de serviço, de saúde, de consumo e de infraestrutura) precisam assumir um pragmatismo de destaque na sensibilização de seus cooperados, sobre a importância da participação das famílias no processo sucessório.
20 — O RENASCIMENTO RURAL E O RESGATE DE EXPERIÊNCIAS NA AGRICULTURA FAMILIAR: nesse contexto, a sucessão rural familiar é um tema que jamais se esgota, mas que muita liderança retrógrada sabota, prejudicando de forma oculta e insidiosa, minando os sonhos de muitos sucessores, especialmente quando se agarram "com unhas e dentes" a seus conceitos e cargos.
21 — COOPERATIVISMO COM ESPÍRITO FAMILIAR-FORTALECENDO GERAÇÕES: uma família e uma cooperativa não se regulam apenas pelas leis do mercado, mas pelas relações humanas que fortalecem uma sociedade, pois a sociedade de pessoas é maior do que o mercado, podendo este ser excludente nalgumas situações.
Com esse espírito familiar acolhedor em ação, a importância do cooperativismo passa a ser sentido a partir do seio do lar, de modo que possa incentivar aí o surgimento de novos sucessores para o agronegócio e novos sócios.

As novas gerações precisam ser iniciadas e educadas sobre a nobreza do verdadeiro cooperativismo, de maneira que entendam por que é que muitas cooperativas faliram, enquanto outras funcionam tão bem até nossos dias.
Uma cooperativa é uma entidade complexa, que inclusive muitos sócios não sabem como funciona, mas precisam se interessar no assunto, afinal, a empresa cooperativa é deles.
Em última análise, sucessão familiar acontece cooperativamente dentro da propriedade, pois é aí que a própria cooperativa nasce de verdade.






