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O AGRO DIANTE DE CINCO INQUIETACOES: SUSTENTABILIDADE, SUCESSAO, COOPERACAO, GESTAO E SAUDE MENTAL NO CAMPO BRASILEIRO

O campo enfrenta cinco desafios: clima, êxodo jovem, isolamento, distância do poder público e o silêncio sobre a saúde emocional de quem cultiva a terra.

O campo brasileiro atravessa hoje cinco inquietações que se cruzam e se alimentam mutuamente

O campo brasileiro atravessa hoje cinco inquietações que se cruzam e se alimentam mutuamente: o clima que muda mais rápido do que as certezas antigas, a juventude que parte antes de aprender a ficar, o produtor isolado que perde força de negociação, o poder público distante da vida real do interior e o silêncio que cerca o sofrimento emocional de quem trabalha a terra. Há mais de três décadas dedicadas à extensão rural, ao cooperativismo e à gestão pública, tenho defendido que essas cinco frentes não são problemas isolados, mas expressões diferentes de uma mesma ruptura entre o ser humano e o sentido do seu trabalho. E é a Agrosofia que orienta o caminho de volta.


A terra que se cuida e o jovem que fica

A sociedade cobra do agro respostas rápidas diante de secas, veranicos e chuvas cada vez mais concentradas. Tenho insistido que o agro não é apenas pop, mas popular, produtivo, necessário e forte, e que os problemas ambientais pertencem a toda a sociedade, não apenas a quem planta. A Agrosofia trata a terra não como recurso a ser explorado, mas como parceira a ser compreendida, unindo o rigor científico ao manejo consciente que defendo desde os tempos de extensionista da Epagri. Quem observa a terra antes de exigir dela aprende a colher sem esgotar e a plantar sem pressa.

Junto disso está a sucessão. O envelhecimento da população rural e o êxodo da juventude ameaçam a continuidade da produção familiar. Defendo que a sobrevivência da propriedade depende de transformá-la de herança consanguínea em entidade: um estabelecimento regularizado, tecnificado e submetido a gestão profissional. Mas isso só se sustenta quando os pais exercem uma liderança de firmeza afetuosa, reconhecendo os dons do jovem produtor e abrindo horizontes claros antes que ele decida partir. Não se planta futuro em terreno sem horizonte.


A união que fortalece e a gestão que serve

Produtores isolados enfrentam dificuldade crescente para comercializar de forma competitiva, e o associativismo surge como ferramenta natural de sobrevivência, desde que supere o individualismo e se profissionalize. Costumo resumir dizendo que o associativismo une quem tem objetivos comuns e o cooperativismo estrutura essa união em um modelo de negócios robusto, de dupla natureza: associação de pessoas e empresa competitiva. Sozinho o homem cultiva um talhão; unido, ele cultiva um destino.

Ao lado da cooperação está a gestão pública. A sociedade cobra uma administração mais transparente e menos burocrática, capaz de levar infraestrutura, saúde e segurança até o interior. Como ex-Diretor Estadual da Epagri e ex-Prefeito de Camboriú, defendo uma administração centrada em pessoas, integrada à extensão rural, à educação e à inovação, na qual a Agrosofia funciona como inspiração para humanizar o serviço público do futuro. Gestão pública que não pisa na terra do povo governa no escuro.


O silêncio que adoece e o vínculo que cura

O isolamento geográfico, a pressão financeira das frustrações de safra e a sobrecarga de trabalho têm elevado os índices de ansiedade e depressão no meio rural, muitas vezes em silêncio, porque a saúde mental ainda não faz parte do vocabulário cotidiano do trabalhador do campo. Defendo que a estabilidade emocional da família rural se ancora na clareza da própria missão — a dignidade de produzir o alimento essencial da sociedade — e que o carisma da cultura da terra, a solidariedade prática herdada dos antepassados, é o antídoto natural contra o esvaziamento interior. A alma do homem do campo adoece na solidão e se cura no mesmo lugar: no vínculo com a terra e com a família.

Clima, sucessão, cooperação, gestão pública e saúde mental são faces de uma mesma pergunta que a Agrosofia formula há anos: como reconciliar o ser humano com a terra que o sustenta, com a família que o acompanha e com a comunidade que o cerca. O campo brasileiro só terá futuro se tiver, ao mesmo tempo, ciência, cooperação e alma.

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