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ESPÍRITO EMPREENDEDOR E COOPERATIVISMO: A ALIANÇA QUE NASCE DE DENTRO

As organizações cooperativas representam muito mais do que um modelo econômico. Elas expressam uma forma humana de organizar a vida social e produtiva.

O Espírito Empreendedor versus o Empreendedorismo Moderno

Existe uma diferença que vale a pena recuperar antes que ela se perca de vez no vocabulário corrente. Empreendedorismo é o nome que a modernidade deu a um sufixo, o ismo que transforma uma virtude pessoal em sistema, em disciplina acadêmica, em política pública, em mercado de cursos e consultorias. Espírito empreendedor é outra coisa. É a disposição que vem antes do sistema, a força interior que antecede qualquer plano de negócios, qualquer planilha, qualquer pitch. Peter Drucker, em sua obra clássica de 1985, não escreveu sobre empreendedorismo como técnica, escreveu Inovação e Espírito Empreendedor, porque sabia que a inovação verdadeira nasce de uma disposição da alma antes de se tornar método. Idalberto Chiavenato, décadas depois, falou em dar asas ao espírito empreendedor, como quem reconhece que existe algo que voa antes de existir algo que se administra. Joseph Schumpeter, o economista que mais influenciou o pensamento sobre o tema no século vinte, descreveu o empreendedor como aquele que realiza combinações novas e promove a destruição criativa da ordem econômica vigente. Mas mesmo Schumpeter, ao definir a função, estava descrevendo o efeito de algo que precede a função, uma disposição de espírito que se converte em ato.

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A Fundamentação Espiritual e Transcendental da Cooperação

Essa distinção entre espírito e sistema não é nova para quem caminha pela tradição de fé. O profeta Isaías já descrevia, setecentos anos antes de Cristo, um espírito que repousa sobre a pessoa antes de qualquer obra seguir adiante, espírito de sabedoria e entendimento, de conselho e fortaleza, de ciência e piedade. São disposições recebidas, não conquistadas pelo esforço sozinho, sementes que crescem à medida que a alma se abre e coopera com a graça. O paralelo com o espírito empreendedor é mais do que retórico. Assim como a sabedoria não é o mesmo que o entendimento, embora caminhem juntos, o espírito empreendedor não é o mesmo que o empreendedorismo, embora um sustente o outro. O espírito é o que brota do âmago do indivíduo, entusiasmo, princípio, quase uma fé na possibilidade do novo. O empreendedorismo é esse espírito posto em movimento para fora, em obra, em organização, em resultado concreto para a comunidade.

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A Evolução Histórica das Fronteiras entre Cooperar e Empreender

E é exatamente aqui que a liderança cooperativista e associativa de hoje deveria se deter com atenção redobrada, porque algo está mudando, e mudando para melhor. Quando o cooperativismo nasceu, em Rochdale, na Inglaterra de 1844, vinte e oito tecelões se uniram para fundar a Sociedade dos Probos Pioneiros de Rochdale, lançando os princípios que ainda hoje orientam o movimento cooperativo no mundo inteiro. Antes deles, Robert Owen já havia ensaiado experiências de cooperação como resposta humanista ao individualismo cru que a revolução industrial impunha aos trabalhadores. Era um tempo de fronteiras duras. O associativismo nascia, muitas vezes, como reação ao mundo dos negócios, como alternativa ao empreendedorismo individual e competitivo, quase um campo oposto. Cooperar e empreender pareciam, naquele século, dos caminhos que se entrecruzavam pouco, um voltado à solidariedade entre iguais, outro voltado à conquista individual do mercado.

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A Nova Paisagem da Liderança Coletiva Contemporânea

O tempo presente revela outra paisagem. O espírito empreendedor e o espírito associativo, antes vistos como adversários, hoje se reconhecem como complementares, e essa é talvez a mudança mais silenciosa e mais decisiva do nosso tempo. O cooperativismo contemporâneo precisa de gente com espírito empreendedor para inovar, para correr riscos calculados, para combinar recursos de formas novas, exatamente como descreveu Schumpeter. E o empreendedorismo, por sua vez, descobre que sozinho se esgota, que a destruição criativa sem aliança vira apenas destruição, e que o crescimento sustentável exige a força do coletivo, a confiança mútua, a governança compartilhada que só o associativismo sabe construir. Não é mais contradição encontrar, na mesma liderança, o empreendedor que assume riscos e o cooperado que distribui resultados. É justamente esse encontro que está gerando, em nossos dias, uma espécie de novo espírito, mais maduro do que o de Rochdale, porque já não nasce da necessidade de proteção contra o mercado, mas da convicção de que o mercado se transforma melhor quando cooperação e iniciativa caminham juntas.

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O Cultivo do Espírito como Base para a Gestão do Amanhã

Para quem lidera cooperativas, associações e empresas familiares, fica um convite simples e ao mesmo tempo exigente. Cultive primeiro o espírito, antes de cobrar o sistema. Forme pessoas que tenham sabedoria para discernir o que favorece o bem comum, fortaleza para enfrentar as adversidades do empreender coletivo, conselho para escutar antes de decidir. Só depois disso o empreendedorismo, como prática, como gestão, como ismo organizado, terá raiz funda o suficiente para sustentar o crescimento sem perder a alma. O espírito vem primeiro, de dentro, como graça e como vocação. O empreendedorismo vem depois, como obra, como aliança posta em movimento para o bem de todos.

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Referências

DRUCKER, Peter F. Inovação e Espírito Empreendedor. São Paulo: Pioneira, 1985.

CHIAVENATO, Idalberto. Empreendedorismo: dando asas ao espírito empreendedor. São Paulo: Manole, 2004.

SCHUMPETER, Joseph A. Teoria do Desenvolvimento Econômico. 1934.

ISAÍAS 11, 2-3. Bíblia Sagrada.

História da Sociedade dos Probos Pioneiros de Rochdale, 1844, marco fundador dos princípios cooperativistas internacionais.

Autor: Ainor Francisco Lotério é um pensador humanista e articulador social que une erudição técnica e profunda sensibilidade comunitária. Engenheiro Agrônomo com Mestrado em Gestão Pública, alia o rigor científico à reflexão existencial e metafísica proporcionada por suas formações em Filosofia e Teologia, atuando também na dimensão espiritual como Diácono Permanente. Com uma carreira consolidada como palestrante de alto impacto e consultor estratégico, ele é o criador da “Agrosofia”,  uma abordagem metodológica inovadora que integra a sabedoria da natureza e os ensinamentos cristãos ao desenvolvimento organizacional. Sua autoridade intelectual e prática o posiciona como uma das principais referências contemporâneas na humanização da liderança, no fortalecimento do Cooperativismo e na estruturação do Associativismo como motores de transformação social sustentável.

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