Do egoísmo hobbesiano (principal preocupação é o problema da ordem social e política), autor do livro Leviatã) à modernidade líquida de Bauman, o individualismo sempre prometeu prosperidade coletiva pelo interesse privado, e sempre entregou isolamento. O cooperativismo nasceu para contestar essa equação na prática. O associativismo alargou o horizonte. O sinodalismo convocou a humanidade inteira. A Agrosofia une os três numa única certeza: a pessoa só se realiza plenamente com o outro. Cooperar não é estratégia. É a única resposta que a história já validou.
DO EGOÍSMO AO SINODALISMO: COOPERATIVISMO, ASSOCIATIVISMO E A GRANDE FRATERNIDADE DA CASA COMUM
- O QUE É EGOÍSMO E POR QUE ELE ORGANIZA O MUNDO
O egoísmo não é apenas um defeito de caráter: é uma matriz antropológica, uma forma de explicar o ser humano e, a partir disso, organizar a sociedade inteira. Hobbes descrevia o estado de natureza como guerra permanente, o homem como lobo do homem. Locke mantinha a mesma premissa: seres humanos naturalmente egoístas, cuja convivência exige um poder mediador. Dessa raiz nasceu o individualismo metodológico, em que a relação social se torna cálculo, não vínculo. É exatamente essa matriz que o cooperativismo vem contestar desde suas origens.
- A MODERNIDADE LÍQUIDA E O ISOLAMENTO CONTEMPORÂNEO
Zygmunt Bauman atualiza esse diagnóstico para o século XXI: numa era globalizada, as estruturas estáveis se desfazem, os laços comunitários enfraquecem e o consumismo passa a definir identidades em permanente mudança. O resultado é o isolamento, pessoas que atribuem a si mesmas a culpa pelos desconfortos coletivos, aprofundando o distanciamento. O antídoto, como Ainor Lotério defende há três décadas, é a cooperação como filosofia de vida, não como estratégia de mercado.
- ASSOCIATIVISMO E COOPERATIVISMO: A ALTERNATIVA DOUTRINÁRIA
Em reação à lógica individualista nasce o cooperativismo, com Robert Owen como figura fundadora. O ponto decisivo é a distinção entre cooperativa, forma jurídica, e cooperativismo, doutrina política, social e econômica que visa reorganizar a sociedade a partir da cooperação como categoria ordenadora do mundo. O associativismo é o círculo mais amplo: reúne pessoas com objetivos ou valores comuns, sem necessariamente constituir uma forma econômica formal. O cooperativismo é seu desenvolvimento mais estruturado, uma sociedade de pessoas, gerida democraticamente, onde o dono é o próprio associado.
- O SINODALISMO: QUANDO TODOS SÃO CHAMADOS SEM EXCEÇÃO
A palavra sínodo vem do grego syn-odos, que significa "caminhar juntos". O Papa Francisco propõe o sinodalismo como o caminho que Deus espera da humanidade no terceiro milênio, mas sua lógica ultrapassa os limites eclesiais.
O associativismo une aqueles que compartilham objetivos comuns. O cooperativismo reúne os que possuem metas econômicas e sociais compartilhadas. Já o sinodalismo convoca todos, não apenas os que têm o mesmo perfil ou interesses, mas todos os que habitam a mesma casa: a humanidade. Sua pergunta não é "o que temos em comum?", mas "como caminhamos juntos?".
Este texto tem como objetivo levantar questões que ajudem a refletir sobre a necessidade de rever a prática atual do cooperativismo brasileiro, de modo a incorporar o conceito de sinodalismo. Imaginamos cooperativas mais comprometidas com a comunidade, fazendo valer o seu sétimo princípio fundamental: o "interesse pela comunidade".
COOPERATIVISMO E SINODALIDADE: A ORGANIZAÇÃO POR INTERESSE COMUM E A VIVÊNCIA NADIVERSIDADE COMUNITÁRIA oferece uma compreensão mais profunda sobre esse tema e aponta caminhos para uma prática cooperativista renovada e mais inclusiva.
- LAUDATO SI E FRATELLI TUTTI: O MAGISTÉRIO DA CASA COMUM
Dois documentos do Papa Francisco ancoram essa visão com força e beleza. A encíclica Laudato Si (2015) propõe o cuidado da Casa Comum como responsabilidade de toda a humanidade — não apenas dos crentes ou dos ambientalistas, mas de todos os que habitam este planeta. A Fratelli Tutti (2020) convoca à grande fraternidade universal: a amizade social que supera fronteiras, identidades e interesses de grupo. A diversidade humana sob a ótica de todos irmãos e da casa comum como responsabilidade coletiva é um dos eixos centrais das palestras pastorais de Ainor Lotério.
- A TRÍADE QUE TRANSFORMA: DO INDIVÍDUO À HUMANIDADE
Cooperativismo, associativismo e sinodalismo formam uma tríade progressiva de círculos de pertença — cada um incluindo o anterior e alargando o horizonte. Onde o contratualismo vê concorrentes que precisam de um árbitro, a Agrosofia vê irmãos que precisam de comunhão. Esta tríade tem implicações profundas para a gestão pública: um gestor que compreende o sinodalismo não governa para uma facção — governa para todos, com todos, ouvindo todos. O bem comum não é a soma dos interesses individuais, mas o ambiente social que permite a cada pessoa desenvolver-se plenamente.
- A SÍNTESE PELA AGROSOFIA: A ALIANÇA PLENA
O fio que une tudo isso, da filosofia moral ao magistério papal, é a passagem de uma antropologia do indivíduo-átomo (a sociedade se torna tão focada no indivíduo que perde o sentido de coletividade) para uma antropologia da pessoa-em-relação, onde a relação social é pertença, gratidão e bem comum. A tríade fundante da Agrosofia — Deus, o eu, o outro — é o oposto da lógica contratualista. A pessoa só se realiza plenamente com o outro, não apesar do outro ou contra o outro. Seja numa cooperativa de agricultores em Santa Catarina, numa associação de mulheres empreendedoras em Goiás, ou na grande assembleia sinodal da humanidade diante das mudanças climáticas: a resposta ao egoísmo é sempre a mesma — cooperar, sempre, sem deixar ninguém para trás.
LINKS PARA APROFUNDAMENTO: Acesse os links acima para leitura complementar e fundamentação aprofundada de cada tema abordado neste artigo.
- https://www.youtube.com/playlist?list=PLzIsJUTHOm9L6-ilVJKoG3sw8w7I2xCpr
- https://loterio.com.br/cooperativismo-associativismo-o-motor-da-transformacao-e-o-poder-das-organizacoes-sociais-rurais-no-campo-goiano-palestra-especial/
- https://loterio.com.br/cooperativismo-e-sinodalidade-a-organizacao-por-interesse-comum-e-a-vivencia-na-diversidade-comunitaria/
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